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Poesia pra quê?

Quem é que precisa de poesia nos dias de hoje? Quem são essas pessoas, que baixam suas armaduras arrogantes e seus achismos egocêntricos para admitir que o homem precisa de beleza, catarse e propósitos maiores do que os seus próprios umbigos para irem adiante?

Quem?

Eu quero ver quem é que levanta o dedo.

O Leminski, aquele louco, dizia que era muito fácil fazer poesia na adolescência, exigindo coragem e força, porém, para ser poeta depois dos trinta anos. Concordo.

Como eu já passei dos trinta, não sou mais poeta. Cresci. Já o fui, quando criança, e no começo de minha estragada juventude. Agora eu sei que faço parte de uma humanidade ultrajante, que não quer nada com a beleza do mundo e recalca qualquer tentativa legítima de apreensão dessa beleza, sei que vivo entre os piores seres do planeta, que provavelmente só estão-estamos aqui para destruir o planeta, como um câncer mesmo. E, assim como não existe câncer ruim, não existe uma humanidade ruim também. Nós apenas somos assim.

Ruinzinhos.

Então, poesia pra quê? Afinal, é esta a pergunta que se faz.

E se alguém responder: “pra ler, senhor escritor”, inventa uma resposta mal educada aí que você acha que eu daria numa situação dessas e responda a si mesmo.

Bicho ruim.

[CATO ALBERICO RIBEIRO]

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poesia, sua gata (partita #73, andantino spiccato poco a poco)

Estou devendo um elogio à poesia.

Eu era uma criança estranha, o que muito provavelmente me transformou também num adulto estranho. Não tenho memórias específicas sobre o que aconteceu comigo antes dos nove, dez anos, mas me lembro, meio enevoadamente, que eu era uma criança que simplesmente gostava de ficar sozinha, assim como eu sou este adulto que odeia gente ao meu redor nos dias de hoje.

Lembro-me que antes de aprender a ler, eu já gostava da palavra, da sua forma. Não lia Schopenhauer quando criança, não sabia latim por conta de algum avô frustrado que empurrava estudos clássicos goela abaixo da criança assustada, não, apenas gostava da palavra, ali, parada. Era apenas uma criança que gostava de folhear revistas, livros, manuais, qualquer coisa com páginas e palavras. Antes de começar a ler, disso eu me lembro bem, eu gostava apenas de ficar olhando para as palavras.

Demorei para começar a ler, assim como já havia demorado para soltar a língua e falar. Não era um gênio em nada, assim, claro, como não sou hoje em dia. E as palavras ajudavam-me nestes momentos de solidão. Mesmo que não as lesse, as palavras, elas ficavam lá, tentando-me com suas formas diversas, fazendo desenhos que me pareciam mágicos nas páginas das brochuras que eu não entendia e nem queria entender.

Então eu aprendi a ler, forçadamente. Constataram que eu, no final das contas, era apenas uma criança preguiçosa. Deve ter sido um alívio para meus pais, mas apenas no começo, pois a constatação de que não existia nenhum tipo de “lerdeza” em mim, pelo menos não uma “lerdeza” patológica, oficializada pelos jalecos da vida, e minha renegada insistência em continuar lerdo, digamos assim, acabou se transformando oficialmente, numa consternação permanente para minha família.

Eu via as pessoas estranhando ao redor, entristecendo-se comigo, entendia, mas não fazia nada. Gostava de ser lerdo.

Aprender a ler tirou um pouco da relação místico-formal que eu tinha com as palavras. Parei com elas. Distanciei-me. Tudo me aborrecia e as únicas coisas que me traziam algum tipo de alegria era dormir e, quando acordado, ficar sozinho, inventando jogos solitários (olha a mente suja), criando amigos imaginários que eu sabia que eram imaginários pois a noção de imaginação já era bastante clara na minha cabeça, então eu criava esses amigos deliberadamente, e sabia que podia me livrar deles quando quisesse, porque eram apenas ideias. Formas da minha mente. Amigos ideais. Chegavam e iam embora na hora que eu quisesse. Este dom, infelizmente, eu perdi há muitos anos.

Isto aqui já virou uma charlatanice autobiográfica.

Pois bem, eu fiquei muitos anos sem ler nada, apenas aquelas porcarias escolares e, mesmo assim, não podia dizer que as lia, pois só fingia, quando fingia, que lia. Não fazia lições de casa e nos eventos escolares em que me obrigavam a decorar falas e textos, como os patéticos coros que minha antiga escola promovia esporadicamente, eu simplesmente fingia que sabia o texto e “dublava” a mim mesmo durante aquelas torturas intermináveis. Eu mexia a boca, mas não emitia som nenhum, aproveitando-me do fato de que ninguém conseguiria perceber que eu estava só mexendo os lábios, já que estava todo mundo cantando ou recitando alto demais para que eu, no meu mutismo covarde, fosse ali desmascarado.

Enfim. Isso aqui não era pra ser um elogio à poesia?

Acho que chegou a hora.

A poesia ensinou-me a ler. Ensinou-me a manter a concentração num texto pelo tempo suficiente para que ele fosse… lido.

Com a poesia eu voltei a ser aquela criança apaixonada pelas formas rocambolescas das palavras sem sentido. Foi como um desvelar do sentido, mas ao contrário. As palavras despiram-se de seus véus semióticos e voltaram a ser apenas aquelas estruturinhas estranhas que me hipnotizavam.

Estranho, eu sei.

Mas é verdade.

Depois, evidentemente, larguei as frescuras que me deixavam lerdo e voltei a vestir as palavras com seus significados que eu sabia serem necessários, mas sem me importar muito com isso, assim como, confesso, não me importo nos dias de hoje. E isso não faz de mim um blasfemador das palavras, muito pelo contrário, eu sou um amante delas e isso me coloca em posição mais do que favorável para falar o que bem entender delas e fazer o que eu quiser com elas.

Currá-las de seus sentidos disformes e fazê-las amadas.

Desculpa, mas é assim.

E foi a poesia que me trouxe de volta a esta cafetinagem lógica. Foi a poesia que me abriu as portas e as pernas para toda a literatura que eu, na adolescência tardia, devorava loucamente.

Foi assim.

E a poesia não me deixa mentir.

Agora não a leio mais. Deixo-a em seu canto. Algumas vezes ela me olha e flerta comigo de longe, pois sabe o perigo que pode ser um flashback deste tipo. E seguro-me.

Quem sabe um dia, poesia?

Mas não hoje.

[CATO ALBERICO RIBEIRO]

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poesia, sua lynda (partita #33, andantino spiccato)

O que eu acho da poesia?

Vez e outra as pessoas me aparecem com essa pergunta, como se realmente alguém viesse me perguntar alguma coisa, no sentido do verbo vir mesmo, mas eu gosto de imaginar que alguém vem, então é como se viessem mesmo, e daí?

Eu sempre digo que a poesia ensinou-me a escrever. A poesia ensinou-me a ler. Não foi a escola. Na escola, muito provavelmente, eu devia gerar algum tipo de pena nos professores, pela “lerdeza” no desenvolvimento. Acho que deve acontecer a mesma coisa hoje em dia. Mas eu lia, meio escondido, exatamente como eu faço hoje em dia. Algumas coisas não mudam jamais. É uma velha sabedoria.

A poesia está morta. Claro que muitos se levantarão e bradarão pela poesia, como bradaram pelo yorkshire recentemente (eu acho até que “bradaram pelo yorkshire” poderia se transformar numa analogia para “grande comoção”). Mas calma lá, por favor, pois esses clamores às vezes mostram o pior que existe dentro de nós, esses medos que nos atormentam, a toda hora, de que podemos ser ruins, maldosos e ainda ficarmos surpresos com isso. É este medo de surpreender-nos com nós mesmos.

A gente tem medo da gente.

Eu sei que os poetas estão aí. Vejo-os nos saraus. Vejo-os nas prateleiras. Mas é como se não estivessem, pois eles não importam mais. Na verdade, eles estão onde devem estar: em lugar nenhum.

Aí fica difícil.

Dificilmente leio poesia. Eles estão aí, na prateleira, tem até um Drummond aqui na minha mesa, mas eles só me fazem companhia. São velhos amigos. Mas dificilmente os leio. É uma pena, eu sei. Por isso acho injusto tudo que escrevi e retiro a tudo, pode ser? Dá pra retirar? Tem que dar, o texto é meu. Eu retiro o que escrevi. Porque a poesia é bela e só uma pessoa que lê poesia pode falar alguma coisa a respeito do assunto e quem não escreve ou faz poesia tem que ficar quietinho no seu canto e deixar a poesia em paz!

Deixa a poesia em paz.

N.P.: Escrever um outro texto sobre poesia pra compensar este que foi retirado.

[Cato Alberico Ribeiro]

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