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odeio textos de odeio

Se eu quisesse seguir modas, faria apenas textos de fácil proliferação na internet, como textos de odeio, por exemplo.

Mas eu odeio textos de odeio.

Seria muito fácil fazer um desses, porque eu odeio quase tudo. E todos. Nem chegaria a ser um texto, acho que sairia apenas uma lista, e listagem não é literatura, apesar de muita gente achar que é. Um parágrafo e outro de lista a gente aguenta, mas um livro inteiro acho que não dá.

Pois seria apenas o trabalho de começar a listar todas as coisas, tudo que eu conheço, seria essa minha lista de “odeios”.

Então eu resumo a lista pra vocês.

Odeio tudo.

Assim nos poupamos do texto espirituoso.

[CATO ALBERICO RIBEIRO]

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clichê?

O que é o clichê?

Lá vou eu, ter que fazer o papel do professor. A palavra clichê tem origem no covil técnico das antigas imprensas e estúdios de artesãos; é de origem francesa e servia para nomear a chapa de metal que se usava como molde para imprimir inúmeras vezes a mesma coisa.

Claro, a palavra, no final das contas, faz sentido nas aplicações que se faz dela nos dias de hoje. A gente sabe o que é clichê, claro, mas a palavra está tão na moda ultimamente, que ela replica-se em nossas conversas sem a gente querer, às vezes sem sabermos exatamente porque é assim, mas a gente usa, porque é um jeito fácil de parecer que a gente está entendendo alguma coisa da existência.

Mas a verdade é que não somos nós que usamos as palavras. São elas que nos usam. E é impressionante o tipo de coisa que nossas palavras nos obrigam a fazer apenas para que elas se repliquem.

Dando um novo significado ao termo “as palavras têm poder”.

E eu acho que elas apenas têm poder sobre algumas pessoas. Não todas.

Essas pessoas são os idiotas.

O clichê é aquela ideia repetida que já se replica sozinha, funcionando em padrão de máquina abstrata, penetrando nas cabeças das pessoas como vírus vorazes e usando suas mentes para proliferarem-se livremente pela cultura humana.

Vírus vorazes.

E suas presas prediletas são os idiotas. Quer dizer, quase toda a humanidade.

O clichê é mais perigoso do que a gente pode supor. Então a gente não supõe nada e fica olhando tudo acontecer. Um apocalipse, assim, no camarote da Brahma.

Ou a gente pode acabar com os idiotas.

Só pra ver o que acontece.

[CATO ALBERICO RIBEIRO]

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o que é o amor?

foto: Vaner Micalopulos

De todos os fenômenos humanos que a gente não consegue explicar o que é, de todas essas incertezas meio certas, a mais “amada” (com o perdão do trocadilho besta) é o amor.

Porque se a gente pergunta “o que é o amor?”, muita gente gagueja, muita gente acha que sabe exatamente o que é, mas ninguém realmente sabe explicar o que é o amor.

Então a gente responde “sei lá!”, e é por isso mesmo que ele é o que é, e é por isso mesmo que a gente ama o amor.

O amor não se coloca em palavras, porque não existe língua humana que consiga explicá-lo e sempre que se tenta, logo a frustração toma o lugar das tentativas.

Porque o amor já existia incontáveis anos antes do advento de qualquer tipo de linguagem e é por isso que não existe um vocabulário que baste pra explicar o que é o amor.

Não tem filosofia, psicologia, neurolinguística, semântica, ciência, arte ou o que seja que consiga explicar essas coisas de amor.

Essas coisas de amor.

Porque amor a gente sente, não explica.

Porque se dá pra explicar, então não é amor.

E acho também que não existe explicação melhor do que essa.

[CATO ALBERICO RIBEIRO]

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deuses, por que tê-los?

Diógenes, que era todo carne. (detalhe da "Escola de Atenas", de Rafael Sanzio)

Por que perder tempo com o pensamento dos deuses? A gente não entende essas coisas, não tem muito o que entender mesmo, já que são todas umas metafísicas bestas, delírios de crianças. Por que sermos deuses? Qual a vantagem disso? Não é de nossa estirpe, não adianta, nós somos de carne, e precisamos aprender a apreciar isso.

Mas não, claro que não, isso já é pedir demais para nós mesmos, somos muito ruins em pedir coisas para nós mesmos, pois queremos ser luz, queremos ser ar, olhamos nos espelhos e sentimos nojo de nossa carne. Olhamos a pessoa sentada ao nosso lado no ônibus e, ao constatar que somos como aquele indivíduo, logo repudiamos o cheiro de suor e sofrimento que exala de todos seus poros, aquela mistura de esmegma e fuligem. Somos carne. E não gostamos.

Não sei bem porque há de ser desta maneira. Claro que não, por que haveria de saber? Não há porquê.

Não há.

Deuses, por que tê-los?

[CATO ALBERICO RIBEIRO]

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o apocalipse será televisionado

Só o Batman salva.

Pois bem, o Sistema Imunológico da Burrice (SIB, para dar ares oficiais às coisas), é de uma força extraordinária. Porque ele nos obriga a agir num modo automático do pensamento que tende a favorecer os discursos vigentes e as ideologias dominantes. No início de minhas estupefações pessoais eu acreditava, arrogantemente, que as pessoas tinham preguiça de pensar. Hoje eu sei que isso é medo.

Medo de pensar.

As pessoas têm medo de não gostarem da Madonna. Tem gente que nunca pensou na hipótese de não ser um little monster da Lady Gaga (foi muito difícil escrever esta última oração). Todo mundo tem medo da ideia de não querer ser um Eike Batista (indo na filosofia “greed is good” de Gordon Gekko). Essas idolatrias estão em todos os lugares, desde a alçada mais alta dos deuses-astronautas reptilianos até o indivíduo que trabalha no corredor de frituras do McDonald’s. Todos são influenciados por esta força quase irresistível, esta cegueira coletiva chamada idolatria.

Filósofos e até mesmo religiosos, sempre foram alarmistas contra esta técnica brutal que é muito bem usada para manipular as pessoas, mas a humanidade, dominada sabe-se lá por quem, não dá ouvidos e continua a fazer uso desta arma com um objetivo legalizado e de alta aceitação por parte da sociedade: o lucro. Então o mercado cultural deste final de humanidade está realmente repleto do mais puro lixo religioso travestido de arte com o único e exclusivo objetivo de gerar lucro. A indústria cultural não é nada mais do que isso.

Uma religião do capital disfarçada de arte.

Eu vejo toda essa humanidade, desperdiçada, idolatrando pessoas que nunca conhecerão, enriquecendo-as e até mesmo lutando por elas. Se de repente a Lady Gaga fundar um exército, quem é que realmente ficará surpreso com os inúmeros voluntários dispostos a usarem os uniformes bizarros do “Army of Gaga”?

Eu choro pela humanidade. Porque não é esta tosca humanidade de hoje que salvará o planeta no caso duma furiosa chuva de meteoros. A gente está na fase do “vamos bater uns nos outros” e sinto em dizer-lhes que talvez não tenhamos uma próxima fase para contar a História.

Com “agá” maiúsculo mesmo.

Eu acho que já era.

My little monsters of the apocalypse.

As bestas do apocalipse já estão por aí. Ligue a televisão. O fim dos tempos será televisionado.

[CATO ALBERICO RIBEIRO]

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um batestaca existencial que mete o dedo na ferida

"A Incredulidade de São Tomás", de Michelangelo Merisi da Caravaggio, 1601-02

É difícil manter-se são. Mesmo com os pronomes meio errados, que nos lembram como estamos aqui, burros e sãos. É difícil deixar que a mente flua num ritmo que todo mundo finge que reconhece, ainda mais quando ela é apenas um fluxo sereno de gente que finge que sabe, mas não sabe.

Eu escrevo às vezes nessa bateção incessante, querendo que os leitores ouçam as batidas furiosas dos meus dedos nos teclados, e você pode ser pintor, ou fotógrafo, ou o que for, e sentir a mesma coisa, mas aqui eu prefiro manter a discussão presa aos assuntos que domino (ou que me dominam) mesmo sem saber como dizer todas essas coisas, as coisas, porque sou um pouco avesso aos fluxos e não consigo manter o ritmo por muito tempo, por isso escrevo em staccatos, em batidas, num bate-estaca existencial.

Um batestaca existencial.

E não é que meu pensamento funcione em batidas, não é desta forma, as analogias não vão longe assim. Então já nem sei porque usei o termo bate-estaca, mas agora que funcionou, eu acho que prefiro deixar por isso mesmo.

Também não é que eu esteja realmente perdendo a sanidade, só pra explicar porque comecei o texto como comecei. Não acho que a frase “é difícil manter-se são” possa ser interpretada como a afirmação “estou ficando louco de pedra“, então calma lá, muita coisa rolará ainda antes que me tranquem num hospício. Perceber a fragilidade da minha sanidade, a fragilidade de qualquer um, é um dom, então eu fico aqui, meio que metendo meus dedos nas feridas alheias. Porque, antes de qualquer coisa, eu meto os dedos nas minhas próprias feridas. E esta dor, de quem mete os dedos nas próprias feridas, é algo que nos abre os olhos.

Você quer chamar isso de autoconhecimento? Ok. Acho que isso está ok. Acho que dá pra seguir com essa. O ser humano é um padronizador e, quando não está desenhando padrões no universo, gosta de procurar algum sentido formal nas coisas. Até nele mesmo.

E em todos.

Nas coisas e em todos.

E nele mesmo.

Aí entra o dedo na ferida.

Uma afronta à sanidade tetânica.

[CATO ALBERICO RIBEIRO]

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