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odeio textos de odeio

Se eu quisesse seguir modas, faria apenas textos de fácil proliferação na internet, como textos de odeio, por exemplo.

Mas eu odeio textos de odeio.

Seria muito fácil fazer um desses, porque eu odeio quase tudo. E todos. Nem chegaria a ser um texto, acho que sairia apenas uma lista, e listagem não é literatura, apesar de muita gente achar que é. Um parágrafo e outro de lista a gente aguenta, mas um livro inteiro acho que não dá.

Pois seria apenas o trabalho de começar a listar todas as coisas, tudo que eu conheço, seria essa minha lista de “odeios”.

Então eu resumo a lista pra vocês.

Odeio tudo.

Assim nos poupamos do texto espirituoso.

[CATO ALBERICO RIBEIRO]

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o que é o amor?

foto: Vaner Micalopulos

De todos os fenômenos humanos que a gente não consegue explicar o que é, de todas essas incertezas meio certas, a mais “amada” (com o perdão do trocadilho besta) é o amor.

Porque se a gente pergunta “o que é o amor?”, muita gente gagueja, muita gente acha que sabe exatamente o que é, mas ninguém realmente sabe explicar o que é o amor.

Então a gente responde “sei lá!”, e é por isso mesmo que ele é o que é, e é por isso mesmo que a gente ama o amor.

O amor não se coloca em palavras, porque não existe língua humana que consiga explicá-lo e sempre que se tenta, logo a frustração toma o lugar das tentativas.

Porque o amor já existia incontáveis anos antes do advento de qualquer tipo de linguagem e é por isso que não existe um vocabulário que baste pra explicar o que é o amor.

Não tem filosofia, psicologia, neurolinguística, semântica, ciência, arte ou o que seja que consiga explicar essas coisas de amor.

Essas coisas de amor.

Porque amor a gente sente, não explica.

Porque se dá pra explicar, então não é amor.

E acho também que não existe explicação melhor do que essa.

[CATO ALBERICO RIBEIRO]

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uma mentira que não espera quadrigêmeos

O ser humano é um bicho de mentira. Impressiona-me o fato de que, diante de histórias fantásticas, as pessoas nunca contam com o fato de que o tal contador de histórias fantásticas pode ser apenas um mentiroso. Pura e simplemente. Ele foi abduzido por aliens reptilianos do mal e não se tem nenhuma evidência disso além do testemunho do abduzido? Deve ser verdade, claro, ele não pode estar mentindo, afinal de contas é muito mais provável que uma forma de vida extraterrestre viaje milhões de anos luz para participar de sessões sadomasoquistas com humanos do que o abduzido estar mentido. Claro. Um papai transtornado joga a filha pela janela e nega que o fez apesar das inúmeras provas que mostram exatamente o contrário? Claro. Uma menininha chega grávida em casa e diz que foi o Espírito Santo? Claro.

Enfim, não quero me alongar nos exemplos “hipotéticos”; eles podem ser tendenciosos.

A imprensa, que também não é santa, mas é cega quando lhe convém, gosta de fechar os olhos para as mentiras mais escabrosas e ridículas e sempre nos presenteia com o supra sumo da bizarrice comportamental, todos os dias, no conforto dos nossos lares. O último “furo” mentiroso foi o da pedagoga Maria Verônica dos Santos, que se dizia grávida de quadrigêmeos, lá pras bandas de Taubaté, São Paulo. Ela andava por aí com uma barriga ridícula, que obviamente era de mentira, onde caberiam com facilidade os quatro supostos filhos além de mais alguns amiguinhos pré natais dos mesmos. Era simplesmente ridículo. E ninguém pediu nem mesmo uma averiguação, nem mesmo uma levantadinha no vestido.

O marido: imbecil ou cúmplice?

Está aí uma prova de como podemos ser inocentes e imbecis quando queremos. Mostramos esta estranha ingenuidade que só se justifica, penso eu, porque esperamos a mesma cegueira dos outros quando os mentirosos formos nós. Não consigo pensar em outra explicação. Não queremos enxergar essas mentiras, que às vezes podem ser hediondas, porque não gostamos de perceber que, às vezes, somos nós os mentirosos. Então fica tudo na boa. Você mente daí, eu minto daqui, e estamos combinados.

Agoras as pessoas ficam se perguntando: “pra que a menina inventa uma coisa dessas”? Eu, na verdade, fico impressionado mesmo com o fato de ter tanta gente que acredita. Mas isso sou eu.

Existe uma patologia, divertida, chamada “Síndrome de Munchausen”. Ela é uma desordem psiquiátrica em que os “doentes” simulam uma doença e fingem sintomas para conseguir a atenção das pessoas ao seu redor. Carência pura e um pouco exagerada. Existem mães, vítimas desse transtorno, que deixam seus filhos doentes, propositalmente, apenas para vestirem a capa da vítima e fingirem-se castigadas pelo destino. Elas sofrem e choram e pedem explicações aos médicos, mas são elas próprias que provocam os sintomas nos filhos, negando-lhes os tratamentos que os curariam com facilidade ou, não raro, piorando-os com envenenamentos periódicos ou súbitos enforcamentos.

Ah, a humanidade.

Este caso da pedagoga é bolinho.

Pedagoga mentirosa compulsiva, enfermeira arremessadora de cachorros, médico estuprador. Eu queria muito saber o que se passa com os diplomados desse Brasil.

Tá bom, o assunto não é esse.

Desculpem.

Mas eu falei alguma mentira?

[CATO ALBERICO RIBEIRO]

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os 12 minutos sem BBB que fariam a diferença

Passado o alvoroço inicial causado pelo estupro em horário nobre com o qual a Globo presenteou-nos nos últimos dias, acho que posso agora tecer minhas opiniões a respeito do assunto.

E se escrevo sobre coisas que acontecem na televisão, mesmo sem uma televisão em casa, é porque não posso deixar de perceber as grandes reverberações que tamanhas inutilidades provocam nas pessoas e não consigo, como escritor, deixar de escrever sobre isso. É meu jeito de ver e viver a vida. Sim, eu escrevo mais do que vivo.

É claro que o BBB é um exemplo clássico do “não vi, mas não gostei”. Exatamente por isso é que devemos usá-lo com cautela, para não soarmos falsos e aproveitadores. Como os participantes do BBB.

E nesta semana uma menina aparentemente foi estuprada na casa. Estava bêbada, quase inconsciente, teve um rapaz lá que chegou junto, chegou chegando, debaixo do edredon, que é o motel do BBB, e deu uns agarros não consensuais na guria, porque ela não estava em condição de dizer nem sim e nem não mesmo, mas o rapaz foi mesmo assim. O que é uma permissão quando se está diante de milhões de pessoas, não é mesmo?.

Calhou que o rapaz é mulato e já estão falando também em racismo e perseguição. Estão falando que a mulher é uma vagabunda de grande linhagem e que essas coisas acontecem a toda hora na balada. Tem gente que viu estupro, tem gente que viu quenguice.

É por isso que eu odeio balada.

Bom, há males que vêm a bem. Este é um ditado batido. Mas bendito. Pois espero que a grande polêmica gerada por conta do estupro pequeno-burguês na casa do BBB acabe se transformando, ao menos, num debate lógico e razoável sobre a violência sexual contra a mulher no Brasil. Afinal de contas, os números estão aí, aterrorizantes, e eles nos dizem que uma mulher no Brasil é estuprada a cada 12 minutos neste nosso país santo, que não tem terremoto, não tem furacão, mas tem cada bizarrice que nos faz diariamente duvidar cartesianamente da humanidade. Vocês querem saber de um outro número assustador? Apenas algo em torno de 10 a 20 por cento dos casos de estupros reais no Brasil chegam a ser denunciados. Quer dizer, o número de estupros no país é muito maior do que a gente imagina.

Talvez esta comoção toda sirva para se discutir a questão com seriedade e, quem sabe, dar coragem às milhares de meninas que são aterrorizadas de hora em hora pelos seus algozes sexuais. Talvez, amanhã, num hipotético e otimista futuro, os números das denúncias de estupros aumentem, quem sabe? O que não significará que que se aumentou o número de estrupros, mas apenas aumentou o número de denúncias. Deixará de ser um crime silencioso. Quem sabe?

Como dizia o Drummond, “eu acredito no homem”.

Talvez.

Se desligarmos a televisão para que a realidade, ao menos, consiga nos chocar.

12 minutos.

E contando.

[CATO ALBERICO RIBEIRO]

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que está no canadá

É claro que o meme já fez seu próprio Tumblr. http://menosluisaqueestanocanada.tumblr.com A gente acha que é a gente que faz, mas é o meme que faz pela gente.

Mais um viral, funcionando em padrão de máquina abstrata, toma conta da internet, quase como se estivesse pensando na sua própria expansão, maquinando contágios, replicando-se de forma consciente. Mais um meme canibal na área.

Estou falando da recente explosão viral já bastante conhecida pela tag #LuizaEstanoCanadá, que começou por causa duma famigerada propaganda de um condomínio de “alto luxo”, lançado na Paraíba. No vídeo aparece um colunista social, desconhecido do resto do mundo, de nome Gerardo Rabello, anunciando o lançamento do condomínio Boulevard Saint Germain, “o novo endereço da sociedade paraibana”. Quatro vagas na garagem, sala para três ambientes, um apartamento , enfim, para toda a família e um clube de lazer. No final da propaganda ele aparece com a família, feliz da vida e diz: “e é por isso que eu fiz questão de reunir toda a minha família, menos Luíza, que está no Canadá, para recomendar este empreendimento, que eu assino embaixo”. Luíza, que está no Canadá, é a irmã de Rabello.

Agora as pessoas estão alvoroçadas, metendo o pau no “autor” da frase, há quem diga que o coitado expôs a Paraíba ao ridículo. Algumas outras acusam-no de ser mais um deslumbrado representante da elite, babando esnobismo e transbordando em soberba. Eu não vi nada demais, até gostei da dicção dele, acho que o tal colunista deu um charme peculiar a antes despercebida e desvalorizada frase “menos Luíza, que está no Canadá”.

(Existe isso ainda? Colunista social? E eu sou o único que acha que a Val Marchiori deu em cima do Amarury Jr. pra conseguir a vaga de repórter ryca no programa do colunista dos colunistas?)

Voltando ao assunto, há quem diga que alguns futuros ex-moradores do condomínio até já desencanaram de suas compras. É por isso que são futuros ex-moradores, vejam bem. Mas eu acho que isso é um exagero da maldade alheia, pois uma certa vivência no mundo mostra-nos que até uma propaganda negativa pode também ter o seu lado positivo e render bons frutos ao anunciado.

Falem mal, mas falem de mim.

Então as pessoas fala sobre o assunto mesmo, e falam demais, a internet já está tomada pelas inúmeras brincadeiras e piadinhas de humor duvidoso (por não ter graça nenhuma mesmo), e os tais apartamentos do tal condomínio de alta classe, ouçam o que digo, leiam o que escrevo, venderão como água. A mim só interessa o fenômeno da explosão viral. Entender sua mecânica. Considero tal assunto uma espécie de Santo Graal do conhecimento. Porque eu acho que o universo inteiro funciona mais ou menos do mesmo jeito e, entender esta expansão louca, promovida por milhões e milhões de ociosos imbecis e arrivistas cibernéticos que correm atrás de sucesso imediato na internet com a repetição esquizofrênica de tags enorme e fúteis, é entender o universo.

#LuizaEstanoCanadá
#LuizaEstanoCanadá
#LuizaEstanoCanadá
#LuizaEstanoCanadá

Aposto que Luíza deve estar fula da vida com o irmão phynno.

#FicanoCanadáLuíza, porque a coisa aqui tá preta.

[CATO ALBERICO RIBEIRO]

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um minuto de movimento psicológico subjetivo durante uma reunião de trabalho (talvez o café esteja forte demais)

nenhum de nós é tão burro como todos nós juntos

O corpo humano é todo um mecanismo (com a permissão para esticar as compreensões semânticas da palavra “mecanismo”) de proteção ao equilíbrio homeostático dele mesmo.

Não estou muito certo se “equilíbrio homeostático” é redundante.

Mas enfim. Ele, o corpo, é todo defesa.

Existem dois tipos de defesas imunológicas neste corpo, neste meu, neste seu, neste nosso corpo: o inato e o adaptativo. Tudo no corpo é um mecanismo, repito, de proteção dele mesmo. Do que, exatamente? De tudo que existe neste ambiente externo e que é extremamente danoso à formação desta coisa fascinante que é a consciência humana.

Desculpem-me o pedantismo; a leitura deste Damásio me deixa assim. Comovido.

Pois bem, a saliva é uma arma muito eficiente contra bactérias, assim como o suco gástrico, um também poderoso destruidor de micro organismos invasores. Tanto a saliva como o suco gástrico fazem parte do sistema imunológico inato. São armaduras.

Se a armadura falha, o que é muito comum nestes dias modernos de psicossomatias, existem várias outras formas de defesa-ataque (uma defezataque) que minam as resistências dos invasores. Até que os destruam completamente. Ou não.

Estes termos e ideias são mais ou menos reconhecíveis por todos nós, acho que aprendemos um pouco disso na escola. Faz muito tempo. Porém, para os milhões de outros detalhes a respeito do assunto, eu nunca me canso de repetir, está aí nossa amiga internet com tudo que precisamos para sanar nossas dúvidas.

Ou entra na faculdade de medicina.

Todo mundo sabe mais ou menos o que é um sistema imunológico. O que ninguém para pra pensar, é que a mente humana, a consciência, esta coisa muito difícil de ser compreendida por ela mesma, provavelmente também tem seus próprios mecanismos de defesa. E muito similares aos mecanismos orgânicos de nosso sistema imune. É o que eu gosto de chamar, só pra causar um pouco, de “Sistema Imunológico da Burrice”.

Quando uma ideia nova (invasora) rompe a barreira de nossas opiniões, que são todas essas mentirinhas disfarçadas de verdadinhas, a mente logo aciona suas defesas, na velocidade da luz, e usa todos os artifícios disponíveis para atacar essa ideia invasora. A pessoa nem percebe, mas pode estar usando uma tática de persuasão nazista contra uma ideia nazista.

A mente ataca sem pensar.

Como tudo acontece muito mais rápido do que a propagação dessas opiniões pelo ar, os discursos que nos enojam ou enraivecem, e que viajam na velocidade do som, são logo rechaçados antes mesmo que eles toquem nossos ouvidos. Fica provado aí porque um preconceito aflora muito mais rápido do que uma conclusão real, obtida através de uma longa exposição dos fatos e a franca discussão e análise científica de todos eles.

A verdade é demorada. Por isso que ela é chata.

E é por isso que não se deve perder tempo com ladainhas preconceituosas e fingimentos intelectuais. Se você não sabe do que está falando, cala a boca. Talvez você aprenda alguma coisa ouvindo. O silêncio liberta.

Eu, assim como o Luis Fernando Veríssimo, odeio reuniões de trabalho e também acho que é por causa delas que a humanidade está parada no mesmo lugar há anos.

E eu acho que este café talvez esteja um pouco forte demais.

[CATO ALBERICO RIBEIRO]

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