os imbecis também vivem. ou não.

“Os céus e a terra tomo hoje por testemunhas contra vós, de que te tenho proposto a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolhe pois a vida, para que vivas, tu e a tua descendência, (…)”
Deuteronômio 30:19

O que dizer da vida além do óbvio, de que ela está aí para ser vivida? “Por quê?”, perguntaria o pessimista de plantão. “Porque sim”, respondo eu, com o perdão do simplismo arrogante.

A vida para ser vivida.

Porque a morte está à espreita, afinal de contas.

Incansável.

Num parafuso solto da roda dianteira da sua bicicleta naquela alucinante descida da Avenida Rebouças. Na bebedeira raivosa do motorista de ônibus da viação São Paulo – Aparecida. Na noite mal dormida do neurocirurgião que está para acertar aquela veia inocente no seu cérebro, logo hoje, logo agora.

Ela está em todo lugar.

Sempre.

Então viva, imbecil.

Viva.

[CATO ALBERICO RIBEIRO]

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o que é o amor?

foto: Vaner Micalopulos

De todos os fenômenos humanos que a gente não consegue explicar o que é, de todas essas incertezas meio certas, a mais “amada” (com o perdão do trocadilho besta) é o amor.

Porque se a gente pergunta “o que é o amor?”, muita gente gagueja, muita gente acha que sabe exatamente o que é, mas ninguém realmente sabe explicar o que é o amor.

Então a gente responde “sei lá!”, e é por isso mesmo que ele é o que é, e é por isso mesmo que a gente ama o amor.

O amor não se coloca em palavras, porque não existe língua humana que consiga explicá-lo e sempre que se tenta, logo a frustração toma o lugar das tentativas.

Porque o amor já existia incontáveis anos antes do advento de qualquer tipo de linguagem e é por isso que não existe um vocabulário que baste pra explicar o que é o amor.

Não tem filosofia, psicologia, neurolinguística, semântica, ciência, arte ou o que seja que consiga explicar essas coisas de amor.

Essas coisas de amor.

Porque amor a gente sente, não explica.

Porque se dá pra explicar, então não é amor.

E acho também que não existe explicação melhor do que essa.

[CATO ALBERICO RIBEIRO]

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como o coma acontece

Voltei de um coma.

É isso mesmo. Não entrarei nos detalhes do assunto, não falarei como começou, não explico porquê.

Um coma que durou exatas duas semanas. Quatorze dias, pra quem é ruim de conta.

Este texto não terá a forma de um diário, não tentará explicar nada, muito menos o que é um coma. Não será um relato emocionado, não tentará tocar o leitor com mensagens pueris de esperança e fábulas infantis de luzes no final de algum túnel cósmico.

Não.

Voltei do coma, se é que posso continuar abusando assim do verbo “voltar”, enfim, voltei o mesmo, a mesma pessoa, talvez um pouco pior.

Vai entender.

Este é o primeiro texto que faço depois dessa “volta”.

E acho que não tem porque repetir que voltei, já que não fui a lugar nenhum.

Se o leito da UTI é um lugar, e claro que é, então foi de lá que voltei.

E estou igual.

Mas pior.

[CATO ALBERICO RIBEIRO]

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não existe artista ruim

Palavras? Pra quê?

Não existe artista ruim ou bom, existe artista pouco treinado ou muito treinado. Não tem isso de talento nato, não tem essas de benção dos deuses, não existe gênio fora da natureza. O que existe são pessoas que treinaram muito e pessoas que treinaram pouco. Colocando desse jeito, até que fica simples.

Porque é simples.

Esta ideia pode ferir seu senso de divindade, concordo, mas isso é bom, isso é para o bem. Pois somos carne.

Nada de semideuses. Nada dessas coisas que a gente fala ou pra enganar todo mundo ou porque nunca pensou com seriedade sobre o assunto. Não. Chega de mentiras, chega de idolatria. Não existe o melhor por direito, mas sim o melhor que o é por merecer. Uma meritocracia técnica. Ganham os treinados.

E eu já sei que ninguém vai entender esse último parágrafo do jeito que eu gostaria que ele fosse entendido.

Artistas são suspeitos, porque usam a mais mortal técnica de manipulação de humanos para obter lucros, mas com um pequeno detalhe: ninguém, aparentemente, percebe que este é o único objetivo desses artistas, o lucro, pois eles passam uma falsa impressão de que estão ali apenas fazendo arte pela arte. É claro que as pessoas podem pensar que isso nem é tão nocivo assim. Claro, nossos artistas são apenas uma parte do problema, mas uma parte importante. Eles deixam a população cega, quando deveriam dar olhos à ela. Os artistas, assim como as religiões, conseguem arrancar com facilidade o dinheiro dos bolsos do cidadão comum, enriquecendo aos borbotões com a produção em série de lixo atômico disfarçado de arte. Que mal há nisso? Não sei, por que você não faz essa pergunta pra você mesmo quando estiver dentro dum ônibus lotado às três horas da tarde?

A arte, assim como o pseudoDeus, não precisa de nada. Quem precisa são os crápulas que usam seus nomes. Tomam emprestado suas ilusões, construídas por milênios com suas respectivas técnicas e métodos. Quem precisa do dinheiro, quem precisa das Coisas, olha elas aí de novo, as Coisas, que a gente coloca com letra maiúscula pra deixá-las importantes, quem precisa delas somos nós, minha gente.

As Coisas e nós.

Então devemos abrir os olhos para pastores e padres, políticos e cidadãos, artistas e empresários, arianos e reptilianos. Todo mundo. Numa linda e embalante paranoia geral.

E eu nem sei como vim parar aqui.

E quem sabe?

[CATO ALBERICO RIBEIRO]

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um acaso é um acaso

Um acaso é um acaso. Se eu falo assim é porque eu sei o que é, sem pensar. Então eu sei bem do que eu estou falando quando eu falo em voz alta coisas como “nada é por acaso”.

Pois bem, nada é por acaso. Será?

Eu acho que a maioria das pessoas não pensa muito nas coisas que fala. Muitas palavras saem como espirros ou tosses. São cacoetes de língua, mas que estouram como um fenômeno inteiramente fisiológico. É uma coisa que acontece.

A coisa que acontece.

E normalmente acontece, assim, do nada. Assim como o acaso.

O acaso é a coisa que acontece.

Não é questão de fé, não é questão de que tinha que acontecer porque estava planejado para acontecer. Não é questão de achar ou ter certeza de que tudo no universo é divinamente imprevisível. É só questão de que aconteceu. Simples assim.

E agora já era.

(CATO ALBERICO RIBEIRO]

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ateus versus crentes

Heráclito, o Obscuro. (detalhe da "Escola de Atenas", de Rafael Sanzio)

Ateísmo ou não, eis a questão.

Eu sou ateu, claro, acho que isso fica mais do que óbvio em alguns dos meus textos. Mas não estou aqui no papel de evangelizador ateu. E a contradição dos termos aplicados é sempre bem vinda.

Às vezes acho muito estranha essa nova aptidão do tal “neoateísmo” de estar sempre guerreando com os crentes, que agora é um termo usado para qualquer pessoa que simplesmente crê em alguma coisa, até mesmo em Odin, se assim quiser.

Um mundo de crentes nórdicos. Aí eu ia curtir.

É claro que eu nem vou falar da aptidão natural dos teístas de guerrearem, porque ela já é mais do que conhecida.

Enfim. A guerra, infelizmente, é algo que está no centro das relações humanas. O Heráclito de Éfeso, um grego bem das antigas, disse bem. Apesar do abismo histórico, e das traduções que nunca chegam perto de entender qualquer coisa que seja, ele foi o primeiro a afirmar obscuramente a necessidade infinita dessa guerra cósmica para a formação de tudo e de todos.

Então o que o ser humano gosta mesmo é de brigar. Desculpem-me. Mas não se trata de Deus ou de fé ou de expor as falácias teístas ou da afronta às lógicas humanas.

Não.

É pura e simplesmente uma vontade absurda de pegar em armas. É pura e simplesmente essa vontade genética de esmurrar a cara do vizinho, faltando pra isso apenas que ele me dê um bom motivo; como ser ateu, por exemplo.

Porque se não fosse isso, ateu não brigava com ateu e crente com crente. Se fosse simplesmente uma questão de defender essas ideias absurdas que dominam aos homens, se fosse só isso , a coesão entre os grupos seria indestrutível, não? Mas não é.

Porque, pelo jeito, para unir, o homem precisa destruir.

E o homem é bicho de guerra mesmo.

Infelizmente.

[CATO ALBERICO RIBEIRO]

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