um batestaca existencial que mete o dedo na ferida

"A Incredulidade de São Tomás", de Michelangelo Merisi da Caravaggio, 1601-02

É difícil manter-se são. Mesmo com os pronomes meio errados, que nos lembram como estamos aqui, burros e sãos. É difícil deixar que a mente flua num ritmo que todo mundo finge que reconhece, ainda mais quando ela é apenas um fluxo sereno de gente que finge que sabe, mas não sabe.

Eu escrevo às vezes nessa bateção incessante, querendo que os leitores ouçam as batidas furiosas dos meus dedos nos teclados, e você pode ser pintor, ou fotógrafo, ou o que for, e sentir a mesma coisa, mas aqui eu prefiro manter a discussão presa aos assuntos que domino (ou que me dominam) mesmo sem saber como dizer todas essas coisas, as coisas, porque sou um pouco avesso aos fluxos e não consigo manter o ritmo por muito tempo, por isso escrevo em staccatos, em batidas, num bate-estaca existencial.

Um batestaca existencial.

E não é que meu pensamento funcione em batidas, não é desta forma, as analogias não vão longe assim. Então já nem sei porque usei o termo bate-estaca, mas agora que funcionou, eu acho que prefiro deixar por isso mesmo.

Também não é que eu esteja realmente perdendo a sanidade, só pra explicar porque comecei o texto como comecei. Não acho que a frase “é difícil manter-se são” possa ser interpretada como a afirmação “estou ficando louco de pedra“, então calma lá, muita coisa rolará ainda antes que me tranquem num hospício. Perceber a fragilidade da minha sanidade, a fragilidade de qualquer um, é um dom, então eu fico aqui, meio que metendo meus dedos nas feridas alheias. Porque, antes de qualquer coisa, eu meto os dedos nas minhas próprias feridas. E esta dor, de quem mete os dedos nas próprias feridas, é algo que nos abre os olhos.

Você quer chamar isso de autoconhecimento? Ok. Acho que isso está ok. Acho que dá pra seguir com essa. O ser humano é um padronizador e, quando não está desenhando padrões no universo, gosta de procurar algum sentido formal nas coisas. Até nele mesmo.

E em todos.

Nas coisas e em todos.

E nele mesmo.

Aí entra o dedo na ferida.

Uma afronta à sanidade tetânica.

[CATO ALBERICO RIBEIRO]

Anúncios
Etiquetado , , , , , , ,

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: