os 12 minutos sem BBB que fariam a diferença

Passado o alvoroço inicial causado pelo estupro em horário nobre com o qual a Globo presenteou-nos nos últimos dias, acho que posso agora tecer minhas opiniões a respeito do assunto.

E se escrevo sobre coisas que acontecem na televisão, mesmo sem uma televisão em casa, é porque não posso deixar de perceber as grandes reverberações que tamanhas inutilidades provocam nas pessoas e não consigo, como escritor, deixar de escrever sobre isso. É meu jeito de ver e viver a vida. Sim, eu escrevo mais do que vivo.

É claro que o BBB é um exemplo clássico do “não vi, mas não gostei”. Exatamente por isso é que devemos usá-lo com cautela, para não soarmos falsos e aproveitadores. Como os participantes do BBB.

E nesta semana uma menina aparentemente foi estuprada na casa. Estava bêbada, quase inconsciente, teve um rapaz lá que chegou junto, chegou chegando, debaixo do edredon, que é o motel do BBB, e deu uns agarros não consensuais na guria, porque ela não estava em condição de dizer nem sim e nem não mesmo, mas o rapaz foi mesmo assim. O que é uma permissão quando se está diante de milhões de pessoas, não é mesmo?.

Calhou que o rapaz é mulato e já estão falando também em racismo e perseguição. Estão falando que a mulher é uma vagabunda de grande linhagem e que essas coisas acontecem a toda hora na balada. Tem gente que viu estupro, tem gente que viu quenguice.

É por isso que eu odeio balada.

Bom, há males que vêm a bem. Este é um ditado batido. Mas bendito. Pois espero que a grande polêmica gerada por conta do estupro pequeno-burguês na casa do BBB acabe se transformando, ao menos, num debate lógico e razoável sobre a violência sexual contra a mulher no Brasil. Afinal de contas, os números estão aí, aterrorizantes, e eles nos dizem que uma mulher no Brasil é estuprada a cada 12 minutos neste nosso país santo, que não tem terremoto, não tem furacão, mas tem cada bizarrice que nos faz diariamente duvidar cartesianamente da humanidade. Vocês querem saber de um outro número assustador? Apenas algo em torno de 10 a 20 por cento dos casos de estupros reais no Brasil chegam a ser denunciados. Quer dizer, o número de estupros no país é muito maior do que a gente imagina.

Talvez esta comoção toda sirva para se discutir a questão com seriedade e, quem sabe, dar coragem às milhares de meninas que são aterrorizadas de hora em hora pelos seus algozes sexuais. Talvez, amanhã, num hipotético e otimista futuro, os números das denúncias de estupros aumentem, quem sabe? O que não significará que que se aumentou o número de estrupros, mas apenas aumentou o número de denúncias. Deixará de ser um crime silencioso. Quem sabe?

Como dizia o Drummond, “eu acredito no homem”.

Talvez.

Se desligarmos a televisão para que a realidade, ao menos, consiga nos chocar.

12 minutos.

E contando.

[CATO ALBERICO RIBEIRO]

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