o que o caso do yorkshire e do curumim carbonizado têm em comum?

Eu não sou um indigenista. Acho que isso já ficou óbvio, haja visto a quantidade de textos que eu produzo sobre o assunto: quase nenhum. É claro que eu não sou o mais indicado pra opinar sobre o assunto. Tentarei falar apenas como um ser humano.

Chegou até nós, homens “civilizados”, a notícia de que uma criança da etnia Awá-Gwajá de mais ou menos oito anos foi carbonizada viva por um grupo de madeireiros sadomasoquistas, expondo um lado cruel do ser humano, que mostra como somos às vezes capazes das mais altas atrocidades com seus próximos por nada ou quase nada. Conta-se que os filhosdaputa davam gargalhadas enquanto a criança era queimada e implorava pela vida. Eles gargalhavam.

É claro que o negócio já está dando o que falar, e não deveria ser diferente. O mal provoca ânsias medrosas nas pessoas, um medo de que essas coisas ou se voltem contra elas ou, pior, sejam elas mesmas as protagonistas cruéis de tragédias como essa. É o medo de que sejamos os madeireiros da vez.

Parece que existe um vídeo e, assim que o localizarem, já devemos esperar as reações mais loucas diante das telas dos computadores do Brasil e do mundo. Isso lembrará, decerto, o recém episódio de amor destemperado que frequentadores de churrascarias rodízio passaram a sentir por animais por causa do vídeo do yorkshire. De repente, vai todo mundo se transformar em ferrenho defensor dos índios.

Será bom. Os índios realmente precisam de defensores.

Porque eles estão sendo assassinados aos poucos. E silenciosamente.

Em estudo coordenado pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), foram registrados pelo menos 60 mortes de índios em 2010, números que se mantêm inalterados há alguns anos. É claro que esses são apenas os números oficiais. Casos como a carbonização do curumim passam aos montes sem registro nenhum. Quer dizer que os números de assassinatos e abusos violentos contra os índios são muito mais altos do que os registrados.

Oficialmente.

Novamente, o que me chama a atenção, é esta eterna disposição para polianas cegas que o brasileiro tem. Todo mundo age como se essas coisas não existissem antes de serem veiculadas no YouTube ou aparecerem na capa da Veja. Gente (com o perdão da intimidade que me faz chamar vocês de “gente”), a crueldade humana, com todas essas nuances macabras, simplesmente não vende. É por isso que não veremos essas coisas, que acontecem aos montes e com frequência, estampando capas de semanários sérios e nem mesmo aparecendo entre os gritos de “Me deem imagens” de um Datena da vida. Esses pequenos desvios da estirpe humana, que ilustram nossas revistas e telejornais diariamente, são notícias amenas que servem para manter a humanidade num estado de homeostase, evitando que simplesmente entremos num desespero apocalíptico. É um método de preservação da ordem pública. E tem se mostrado um método eficiente, porque as pessoas andam bem, o capitalismo finge que prospera e o lucro come solto. Às custas apenas de alguns indiozinhos esquecidos nos cafundós mais remotos do país.

Agora é a hora que eu peço que vocês liguem o modo de ironia.

Ironia que precisa avisar que é ironia não é ironia que preste.

Então se preparem para o dilúvio de textos, compartilhamentos cheios de boas intenções nas redes sociais, vídeos, protestos e choros. Preparem-se para um estado de comoção máximo, que deixa as pessoas nas beiradas de seus precipícios existenciais, provocando uma gama enorme de reações extremadas. Preparem-se para aquele sentimento de revolta irracional que às vezes parece que vai durar pra sempre.

Mas não dura.

Vocês podem dizer que eu sou um escritor arrivista e culparem-me por estar fazendo exatamente aquilo que eu condenei há um parágrafo. Podem jogar na minha cara que eu só quero aproveitar-me da situação para viralizar um texto. Mais um texto. Mas eu sou um escritor que enxerga o mundo através do que escreve. Eu preciso escrever.

Enquanto nos alvoroçamos por causa dos sensacionalismos da mídia, enquanto pensamos e discutimos questões como a “ética na internet” e o escambau, enquanto fazemos isso, mais uma criança é assassinada brutalmente por causa dessas desavenças com territórios. Territórios, vejam vocês, que são dos índios. Enquanto ficamos abismados, crianças indígenas morrem de doenças facilmente tratáveis porque são negados a elas os mais básicos direitos do homem dito civilizado, como a assistência à saúde.

Então façamos isso e, depois do alvoroço, voltemos às nossas rotinas cegas, à espera da próxima tragédia para fazer bonito com postagens espertinhas nos Facebooks da vida.

À espera do próximo yorkshire.

[CATO ALBERICO RIBEIRO]

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6 pensamentos sobre “o que o caso do yorkshire e do curumim carbonizado têm em comum?

  1. Mariana Mattos disse:

    Já não fico mais impressionada com esse tipo de coisa. Só me dói o coração mesmo. Isso não acontece só lá em cima. Tem coisa rolando igual ali na esquina.

    O pior é que ninguém faz nada.

    Ótimo texto.

  2. Otávio Pacheco disse:

    Seus textos andam muito incisivos. Vou compartilhar. Foda, traduz, de forma bonita, bem escrita e organizada, muita coisa que passa pela minha cabeça.

    Eu ainda me impressiono, e muito, com essas coisas.

  3. Francamente… acho que vivemos uma nova era, a das redes sociais.
    As pessoas estão vendo (no caso do Yorkshire) diretamente o que ocorre, sem a tradicional edição de imagens de alguém. E as notícias se espalham como virais, sem a decisão dos grandes veículos de comunicação. Muitos indo a reboque.
    Muitos ainda conseguindo ditar direção, muitos sendo pautados.
    Acho ótima a indignação, assim, quanto a casos específicos.
    Adoraria que nossa sociedade se manifestasse conscientemente em favor de políticas públicas macro que abarcam essas situações toda: educação, segurança.
    Porém, para bom entendedor, dá pra pinçar o que é que comove a população.
    E, as pessoas não estão tímidas em expressar sua indignação com o que os toca.
    Acho ótimo.

    Fase nova.
    Vamos ver para onde iremos.

  4. Rosa Belli disse:

    Não concordei com o que você diz no seu texto “O brasileiro gosta mais de cachorro do que de índios”, até comentei lá, mas gostei desse.
    Vídeos fazem a gente se indignar e vivemos numa espécie de torpor, sim, no entanto a indignação por um cachorro ou por um índio são ambas justas e válidas. Só não pode parar aí, você tem razão.
    Para isso, os protetores de animais, que são menos unidos do que seria talvez necessário, lutam todo dia para divulgar os casos, sensibilizar pessoas, para fazer acordar as pessoas, tirá-las desse torpor. Na minha opinião, é o único jeito, já que não podemos esperar por educação (solução definitiva) decente tão cedo.
    Rosa.

  5. O problema é que todo mundo tem acesso a informação, mas é mais fácil compartilhar alguma coisa que cai no facebook do que procurar as noticias nos jornais on line disponíveis!! Eu postei sobre o índio no meu face e disse que se fosse um cachorro, todo mundo já sabia e teria zilhões de compartilhamentos, teve UMA UNICA curtida e NENHUM compartilhamento. Otimo seu texto.

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