os coxinhas da folha de s.paulo e o fim da internet (partita #54 andante più allegro)

Uma resolução de ano novo que eu sempre faço, mas que me é muito difícil cumprir, é que eu sempre digo que, no ano vindouro, eu lerei menos a Folha de S.Paulo. Nunca consegui, não consigo, acho que ela tem algum poder viciante misterioso. Tipo a cocaína na Coca-Cola.

Pelo menos eu parei de ler o jornal de papel, pois era uma coisa que me incomodava muito, aquela sujeira horrorosa nos dedos. Aquela tinta, não sei vocês, mas eu acho que tem alguma maldição naquela coisa.

Mas o jornal de internet eu ando lendo. E, com essa facilidade de informação, essa coisa que todo mundo chama de democratização da internet, eu acabo lendo de tudo, já que está tudo ao alcance desta minha desconfortável preguiça.

Então vocês já estão vendo que eu estou me explicando demais.

É porque eu vou comentar a Folhateen, desculpaê.

Mas vai ser rápido.

Li uma pequena matéria, uma nota, sobre uma senhora americana radicada na Austrália que lançou um livro ensinando às desesperadas mães do mundo técnicas de como tirar os filhos da frente da internet. Claro, como se a internet fosse realmente o maior problema das crianças. Como se não fosse exatamente a internet e a familiaridade com os códigos de programação, por exemplo, a única chance desta humanidade e das gerações futuras. O mundo agora quer tirar a única arma que os livres têm nas mãos para defender-se do… mundo. Eles querem tirar de nós a internet e o acesso indiscriminado, irrestrito e ilimitado a qualquer tipo de informação.

Enfim, desculpem a exaltação.

A matéria na Folha continuava, com tiradas ótimas como “Bill, 15, trocou o Facebook pelo saxofone”, o que é um absurdo de comentário, pois dá a entender que uma criança só consegue tirar da internet os malefícios de um Facebook e que, diante de um computador, ela nunca se interessaria por um saxofone, fato que até teria alguns lados positivos, imagine agora aquele seu vizinho pentelho cismando com as aulas de saxofone?

Claro que existem casos de crianças que só ficam no Facebook quando estão na internet, assim como a maioria dos adultos também, que aparentemente não faz outra merda quando está conectado na rede. É claro também que eu não faço a menor ideia das estatísticas sobre os casos de viciados em Facebook. Se esses números existem, então eu choro pela humanidade.

Então Bill, que era um viciadinho padrão de internet, e sob a orientação marota da menopausa materna, resolveu abir um livro. Sim, longe da internet, aleluia, ele abriu um livro. Porque livros são melhores para as crianças nessa sociedade que vivemos. São melhores do que a internet, claro (notem o sarcasmo). A gente prefere ver nossos filhas ganhando a vida como dançarinas do funk a vê-las na frente da internet, perdendo seus tempos de jovens com hormônios redundantes. A internet virou um mal.

Mesmo sendo ela nossa única salvação.

A notinha terminava, então, com duas boa referências de livros, porque afinal de contas é apenas pra isso que todos os sistemas midiáticos existem: para vender coisas.

Quer dizer, resumindo: eu estou na internet, lendo um artigo cuja opinião é a de que devemos desligar a internet, com uma sugestão de dois bons livros-produtos para abrirmos a cabeça e pensarmos bem sobre a possibilidade de lermos menos jornais a partir de então.

É isso? Ou eu perdi alguma coisa?

Então eu fecho a Folha e vou pro Estadão.

A lanchonete Estadão. Comer uma coxinha.

[CATO ALBERICO RIBEIRO]

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