incentivo banal (partita # 245 lento com moto)

As leis de incentivo fiscal.

Assunto espinhoso.

Eu não sei de que lado fico, afinal de contas. Se prefiro minha consciência ou o clamor de uma classe dita “artística”? Se fico com a primeira, sou obrigado a confessar que não posso ser a favor de nenhum tipo de incentivo, subsídio ou patrocínio governamental para a arte, claro, e seus filhotinho mimados, os artistas. Ou que, pelo menos, seja algo MUITO diferente do que essa agiotagem sem vergonha que são as leis vigentes no país.

Eu sou uma pessoa que não está muito afim de clarear as mentes das pessoas, talvez vocês já tenham percebido isso, o que é muito bom, porque mostra uma certa habilidade mental da parte de vocês. Então eu não vou explicar com muitos detalhes essas leis, talvez de preguiça mesmo, eu sou um cara preguiçoso, e vou deixar o trabalho um pouco pro leitor também. A internet tá aí e, se você está lendo isso agora, é porque tá sentado na frente dela sem fazer nada. Então pesquise. Vá pro site do Ministério da Cultura.

Se você não foi pro site do Ministério, então vai saber o que eu acho se, por acaso, concordasse com a classe artística, que é mesmo a minha área, é mesmo a minha classe. Ou melhor, não vai saber, porque serei obrigado a ficar quieto e não falar o que penso, pois tenho medo de represálias entre os meus. Tenho medo de chegar nas festas e as pessoas me olharem torto. Tenho medo das intermináveis discussões sobre a necessidade da arte e de que como o artista desempenha um papel fundamental para a transformação da sociedade. Ou não.

Eu olho ao redor. Cadê?

O que eu vejo são artistas perdendo a compostura diante do bundalelê capitalista. Não, capitalista não, capitalista seria se eles estivessem pedindo dinheiro diretamente para a iniciativa privada, o que não é o caso, já que o dinheiro que as empresam “doam” para os artistas nessas leis é inteiramente descontado do imposto de renda, ou seja, a grana é inteiramente devolvida para as empresas no final do procresso. Trata-se, pois, apenas de um empréstimo.

Dirão que se não fosse por isso a indústria do cinema, por exemplo, nunca teria a chance de voltar a produzir filmes e levar pessoas às salas de cinema para ver filmes nacionais, fato com o qual sou obrigado a concordar. Mas talvez seja a hora de rever essas burrices.

Por que?

Pois bem, eu posso dar alguns motivos. Artistas, por exemplo, não têm muito discernimento com o dinheiro do outro. Eles não se importam. São pessoas que não têm tanto apego ao conceito de dinheiro, pelo menos uma grande parte deles, ou simplesmente não entendem, e, por isso mesmo, acabam não respeitando o mesmo. Até aí nada demais, mas quando se trata do dinheiro alheio, do dinheiro público, então acho que isso se torna relevante para a discussão.

Eles, por burrice, tendem a ser ganaciosos.

Muitos desses artistas estão se aproveitando sim destas leis para faturar alto, o que eu acho uma sacanagem, já que se trata duma galera que diz fazer o que faz apenas porque gosta, porque ama, que parece estar atendendo a uma espécie de chamado divino (está aí a origem da palavra vocação). Por que lucrar tubos e tubos de dinheiro com algo que simplesmente você gosta de fazer? Por que é melhor? Claro, até aí tudo bem, de novo, mas querer fazer isso às custas de dinheiro público, aí acho que são outros quinhentos.

Exemplos? Temos muito. Tem o do Caetano, que ganhou 715 mil reais para cantar numa festa de final de ano da prefeitura de Fortaleza, festinha animada que custou 5 milhões de reais aos cofres públicos e agora tá sendo investigada por diversas irregularidades, é claro.

Se o Caetano merece 715 mil reais pra tocar em festinha de coronelzinho nordestino? Acho que merece, porque se ele consegue convencer as pessoas a pagarem essa quantia estratosférica a ele, então ele merece ser pago por isso, sim. Só pela malandragem. Só pela cara de pau. Então acho que ele tem merecimento, como não?

Mas esse metecimento só valeria mesmo se o dinheiro fosse da iniciativa privada. O que não é, lembrem-se, eles querem fazer parecer que é, com as logomarcas das empresas “patrocinadoras” espalhados nos banners e pôsteres cafonas, mas não é. Não se deixem levar pelos fervores de suas idolatrias, por favor.

Então, o que precisa ser questionado, não, questionado não, quem sou eu para questionar deuses? Não é do mal de Prometeu que sofrerei agora, pois eu quero que tudo se dane e que a humanidade morra na escuridão de suas tacanhices e preconceitos, mas enfim, o que precisa ser pensado é, como um artista tão amante da pátria como é o Caetano não se pergunta sobre a origem do dinheiro que ele está recebendo ali para agraciar as pessoas com seus ganidos?

Ganidos melódicos, vai. Eu gosto do Caetano.

Outro exemplo, pra gente não ter que ficar pulando de família, é a da recente besteirada do projeto da irmã do Caetano, o tal blog de poesias, que iria custar módicos 1,3 milhões de reais. Nenhuma surpresa aí, pois a Bethânia sempre foi uma artista que acha que o governo TEM mesmo que pagar as contas dos artistas, usando aquele discurso babaca do “precisamos da arte”. Ela sempre aproveita a chance de defender essa ideia com certa arrogância nas entrevistas que frequentemente concede à mídia. Pois bem, precisamos de arte, claro. Mas não tem uma arte mais barata aí no estoque, não?

Mais um exemplo. Em 2007 a insuportável Vanessa da Mata captou 1 milhão de reais para produzir um DVD que seria vendido em lojas. Outro: o filme “Dois Filhos de Francisco” foi o filme que, no ano de sua produção, mais captou dinheiro através dessas leis de incentivo e ainda lucou horrorres com a bilheteria, como todo mundo sabe.

Quer dizer, é lucro em cima de lucro.

Artistas são tratados como deuses e, quando têm a chance de serem idiotas, agarram-se a esta chance e ninguém percebe ou reclama porque a humanidade ainda nutre aquela admiração alienada de sempre pelos artistas. Então eles se aproveitam disso, é óbvio. E todo mundo come nas mãos deles.

Artistas são pessoas como você, com a diferença de que elas mentem melhor.

E mentem bonito.

Se o artista já tem fama de sobra para conseguir o que quiser com seus fãs, para conseguir convencer qualquer pessoa com seus argumentos melódicos e rimas pastosas, por que ele precisa de ajudinha do governo para captar recursos, afinal de contas?

A resposta é simples, meus caros: ganância.

Isso me lembra aquele filme, Wall Street, duma época que o Oliver Stone importava, ou melhor, existia ainda, quando o personagem interpretado por Michael Douglas, o lendário corporativista satânico Gordon Gekko, durante uma reunião de acionistas duma determinada empresa, diz o famoso mote “greed is good”, “ganância é bom”. Anos depois o ator declarou que muitas pessoas vinham a ele ainda, dizendo como se inspiraram no personagem do filme, para serem como ele, e repetiam o mote como se fosse uma coisa boa. O ator aproveitava pra completar e dizer que ficava triste em perceber que as pessoas achavem realmente que aquela era uma mensagem positiva e precisava sempre chamar a atenção de todos pra isso, lembrando-os que não, ganância não é uma coisa legal.

Greed is whack.

Então, artistas, vão trabalhar, vão.

Cambada.

[CATO ALBERICO RIBEIRO]

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