christopher hitchens, nietzsche e a dor de viver morrendo (partita #43 adagio lastimoso)

Christopher Hitchens morreu. A gente ouve de tudo quando as pessoas morrem. Quando um ateu morre o que você mais ouve são coisas do tipo “tá vendo, faltou deus no coração da pessoa”. Claro, como se quem acreditasse em Deus tivesse algum tipo de garantia contra a morte.

Ultimamente vem se falando muito nesses ateus, ou melhor, nesses intelectuais, cientistas, enfim, essas figuras ilustres que começaram a levantar bandeiras contra a religião e a mitologia divina. Por algum motivo, que eu não consigo explicar, todos esses grandes indivíduos acabam tendo suas vidas limitadas a esta visível luta contra o teísmo. Quer dizer, de repente, eles transformaram-se apenas em ateístas.

Hitchens, como deixou claro em seu último artigo para a Vanity Fair, sentiu dor antes de morrer. Não exatamente alguns segundos antes de morrer, mas sentia dor no processo de desligamento, vamos dizer assim. Por isso lembrava Nietzsche, que agonizou uns bons dez anos de invalidez, sob os cuidados da irmã nazista, que aproveitou para roubar e modificar uns textos do irmão outrora filósofo, que estava completamente débil no final de sua vida, aparentemente, mas nunca se sabe se totalmente, pois vai que, numa dessas, ele estava simplesmente enclausurado numa espécie de debilidade, mas com um compartimento de sua consciência sã e totalmente intocada, o que permitia, talvez, que ele percebesse a tudo, mas sem dar mostras disso, sem dar sinal de que estava reconhecendo alguma coisa, completamente enclausurado.

Nietzsche moribundo e a irmã vaca.

Um Nietzsche enclausurado. Sentindo muita, muita dor.

Hitchens, ainda no artigo, relata as dores que sente por causa do tratamento que o mantem vivo, sim, ele mesmo assume que se não fosse a radioterapia ele já estaria morto, e seriam muitas páginas escritas por Hitchens a menos no mundo.

Morrer é sofrer, assim como viver é sofrer. Ninguém vive para sempre e se existem seres imortais não quer dizer que eles sejam deuses, ou espíritos, ou qualquer uma dessas coisas. Se me perguntam, intimamente, é óbvio que não posso crer nessas coisas e grifo esta afirmação com a arrogante constatação de que, sim, eu acho que noventa e sete por cento da população mundial sofre de algum tipo de esquizofrenia coletiva. Estão todos se enganando.

“Ah, mas se você estiver errado? “.

Resposta fácil: eu acharei ótimo. Sairia no lucro, como dizem. Eu chegaria neste outro lugar e saberia que existe realmente uma prorrogação. Eu saberia, não acharia.

No fundo da consciência, saber é sempre melhor que achar.

E eu nem ficaria com vergonha. Olharia pra quem tivesse que olhar ali na hora e falaria: “errar é humano, vocês sabem, né?”. E aí eu daria uns abraços em quem estivesse ali, daríamos umas boas risadas e depois eu ia pro meu purgatório ateu por não sei quantas eternidades, mas iria feliz.

Feliz da vida. Por saber.

Não achar.

A vida é sofrimento, disso a gente sabe também e não adianta nada esconder esse fato com o que você acha que existe ou não.

Achar só serve para esconder a dor de saber.

Sabedoria de morte.

[CATO ALBERICO RIBEIRO]

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Um pensamento sobre “christopher hitchens, nietzsche e a dor de viver morrendo (partita #43 adagio lastimoso)

  1. Désirée disse:

    Como bem dizia minha avó…..achar é o mesmo que não saber!!!

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