a arqueologia do caderno (partita # 67 vivacissimo)

Todo dia aprendo algo de novo com meus cadernos. Aos poucos percebo que eles não têm muita coragem de jogar certas coisas na minha cara. Falam pouco, deveriam falar mais.

Porém, tenho aqui um caderno que fala demais.

E abstenho-me de ouvir cadernos tagarelas, mesmo porque dificilmente os entendo e eu tenho também muita preguiça de tentar.

Eu tenho um caderno que eu tenho muita preguiça em entender.

Tenho mesmo.

O que gritam esses cadernos? Na maioria das vezes são rumores duma mente inquieta que usa as folhas de papel como um espelho babaca e ecoa os balbucios dela de volta como se fossem verdades brotando da lombada frouxa destas páginas espelhadas.

Páginas espelhadas.

Esses cadernos têm a capacidade voraz de refletir tudo que se joga neles como se fosse algo enraizado em suas próprias naturezas de espelhos mal projetados.

E cada caderno domina-me de tal maneira que eu nem percebo mais como esses processos acontecem. Mesmo assim, deixo acontecer. Então eu começo este caderno novo apenas falando sobre este começo e fico nesta toada de auto explicação até umas horas.

Uma arqueologia filosófica.

Porque arqueologia não é ciência de pedra velha, mas a ciência do começo. E a filosofia, aquela, nasceu numa tentativa de entender-se este enigma cafajeste, que é o começo de tudo e de todas as coisas.

Uma arché cafajeste.

A letra vai ficando solta, mais comprida e folgada. E está aqui uma comprovação óbvia do conforto existencial que gera uma ideia tão mal pensada como é o Fluxo.

Fluxos arqutípicos, pois bem. Fluxos que dão conforto.

Quando o fluxo se impõe, é porque o começo já não importa mais e deve-se apenas respeitar este movimento auto organizador que sabe, estranhamente, para onde ir.

E só se vai. E, uma hora, a gente tem que deixar ir embora.

Está aí minha natureza de filósofo molecular, obcecado por máquinas deleuzianas que nada têm de abstratas, ela está aí, batendo-me na cara, ela está aí. O que fazer além de permitir que o fluxo seja fluxo?

“Princípio supremo indemonstrável”.

Um começo de caderno é um apeiron, um não limitado, um idefinido, e ele só é assim porque é como se fosse a própria vida. Ou apenas um espelho de papel com problemas de auto estima, que só faz refletir os cacos descordenados desta vida, em movimentos indeterminados, pra lá e pra cá.

Pra lá e pra cá.

Eis o apeiron. Uma indeterminação que pula de lá pra cá.

Taí um caderno, afinal, que zomba de mim, pra lá e pra cá, assim, meio indeterminado sim, meio sem limites, meio sem fim.

Um caderno sem fim.

[CATO ALBERICO RIBEIRO]

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