extinção teleológica (partita #132 misterioso alla breve)

Sinto as palavras como se estivessem acabando. Terminando nelas mesmas. Exterminando-se. Como se, numa criação estapafúrdia de vida lógica, elas, as palavras, automaticamente se exterminassem. E elas, as palavras, me faltam.

O vocabulário, o repertório, a cultura? O que podem ser essas coisas todas? Não sei. Nunca fui um memorizador. Sou bom nas combinações. Nos agenciamentos, para sermos deleuzianos. Sempre fui melhor entendedor e é como dizem no ditado, que é batido, eu sei, mas meia palavra, para bom entendedor, é mais do que suficiente.

Era pra ser, porque não é. E estão me faltando algumas palavras.

E não dizem também que os bons memorizadores, afinal, são os que fazem as melhores associações? Então não sei mais.

Palavras inteiras fabricam discursos coxos. E bem sabemos como fabricam. A solidez de uma palavra não garante a solidez do discurso. Claro. Mesmo porque não existem textos sólidos. Textos são repletos de ranhuras, como numa esquizosfera; quem pode, afinal, ambicionar a criação dum texto sólido? Chegou a hora do discurso esquizo: sonho de Artaud num platô de Deleuze-Guattari e todos bordados numa manta do Bispo do Rosário. Não há discurso que não seja repartido. Ou inacabado. Isso não quer dizer que não existam textos bons. O bom discurso: o discurso esquizo.

Talvez.

Se partimos do princípio de que todo discurso essencialmente é inacabado, então o fato dele ter fim ou não de maneira alguma determina o valor ou a qualidade desse texto. Seu peso axiológico nada terá a ver com o fato dele ser completo ou não. Quantos textos, ou melhor, fragmentos de textos, parágrafos, pedaços de parágrafos, conseguem ser maravilhosos, como que saídos da voragem mais remota das inspirações humanas para, de repente, mudarem de tom e chafurdarem na mediocridade do jargão repetitivo e sem graça? O que, afinal de contas, aparentava ser um texto perfeito , uma combinação olímpica de palavras, logo se transforma num lamaçal de obviedades, fazendo-nos desejar que o autor tivesse largado a caneta antes de estragar a parte boa do texto. Esses textos podem parecer terminados, mas não são bonitos, às vezes mal passam a mensagem e, por isso, estão longe de serem perfeitos.

A melhor chave de ouro, na maioria da vezes, é o ponto final.

Etimologias fere, por isso serei breve: a palavra “perfeição”, em grego, é teleia, um termo que tem origem na palavra télos, que comumente é traduzido como “fim”. Ora, o termo perfeição era entendido, então, como “aquilo que é finalizado”. Os gregos não entendiam o inacabado, pelo visto. O inacabado não tinha sentido e o fim era, essencialmente, o sentido. Analisando por este lado, perfeição não existe. Só existe o acabado (Leonardo da Vinci não seria um artista muito popular na Grécia Antiga).

Bidú.

Não precisávamos duma tosca lição de etimologia para sabermos disso.

Talvez o problema não esteja na escassez de palavras. Seria apenas, claro, o problema fundamental da escrita: como configurar essas poucas palavras em formas que pareçam à lógica e à linguagem discursos acabados e “perfeitos”? Como?

Na Grécia antiga, “perfeito acabado” seria uma expressão redundante; hoje em dia, os gregos são redundantes.

Então essa minha escassez lógica talvez seja só coisa de idade mesmo.

Quando tudo se acabar, estarei incompleto.

Quando tudo se acabar, colocarei no meu epitáfio: “não fui”.

Quer dizer, alguém vai colocar pra mim.

Não fui. Porque não vou mesmo.

Perfeito.

[CATO ALBERICO RIBEIRO]

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