poesia, sua gata (partita #73, andantino spiccato poco a poco)

Estou devendo um elogio à poesia.

Eu era uma criança estranha, o que muito provavelmente me transformou também num adulto estranho. Não tenho memórias específicas sobre o que aconteceu comigo antes dos nove, dez anos, mas me lembro, meio enevoadamente, que eu era uma criança que simplesmente gostava de ficar sozinha, assim como eu sou este adulto que odeia gente ao meu redor nos dias de hoje.

Lembro-me que antes de aprender a ler, eu já gostava da palavra, da sua forma. Não lia Schopenhauer quando criança, não sabia latim por conta de algum avô frustrado que empurrava estudos clássicos goela abaixo da criança assustada, não, apenas gostava da palavra, ali, parada. Era apenas uma criança que gostava de folhear revistas, livros, manuais, qualquer coisa com páginas e palavras. Antes de começar a ler, disso eu me lembro bem, eu gostava apenas de ficar olhando para as palavras.

Demorei para começar a ler, assim como já havia demorado para soltar a língua e falar. Não era um gênio em nada, assim, claro, como não sou hoje em dia. E as palavras ajudavam-me nestes momentos de solidão. Mesmo que não as lesse, as palavras, elas ficavam lá, tentando-me com suas formas diversas, fazendo desenhos que me pareciam mágicos nas páginas das brochuras que eu não entendia e nem queria entender.

Então eu aprendi a ler, forçadamente. Constataram que eu, no final das contas, era apenas uma criança preguiçosa. Deve ter sido um alívio para meus pais, mas apenas no começo, pois a constatação de que não existia nenhum tipo de “lerdeza” em mim, pelo menos não uma “lerdeza” patológica, oficializada pelos jalecos da vida, e minha renegada insistência em continuar lerdo, digamos assim, acabou se transformando oficialmente, numa consternação permanente para minha família.

Eu via as pessoas estranhando ao redor, entristecendo-se comigo, entendia, mas não fazia nada. Gostava de ser lerdo.

Aprender a ler tirou um pouco da relação místico-formal que eu tinha com as palavras. Parei com elas. Distanciei-me. Tudo me aborrecia e as únicas coisas que me traziam algum tipo de alegria era dormir e, quando acordado, ficar sozinho, inventando jogos solitários (olha a mente suja), criando amigos imaginários que eu sabia que eram imaginários pois a noção de imaginação já era bastante clara na minha cabeça, então eu criava esses amigos deliberadamente, e sabia que podia me livrar deles quando quisesse, porque eram apenas ideias. Formas da minha mente. Amigos ideais. Chegavam e iam embora na hora que eu quisesse. Este dom, infelizmente, eu perdi há muitos anos.

Isto aqui já virou uma charlatanice autobiográfica.

Pois bem, eu fiquei muitos anos sem ler nada, apenas aquelas porcarias escolares e, mesmo assim, não podia dizer que as lia, pois só fingia, quando fingia, que lia. Não fazia lições de casa e nos eventos escolares em que me obrigavam a decorar falas e textos, como os patéticos coros que minha antiga escola promovia esporadicamente, eu simplesmente fingia que sabia o texto e “dublava” a mim mesmo durante aquelas torturas intermináveis. Eu mexia a boca, mas não emitia som nenhum, aproveitando-me do fato de que ninguém conseguiria perceber que eu estava só mexendo os lábios, já que estava todo mundo cantando ou recitando alto demais para que eu, no meu mutismo covarde, fosse ali desmascarado.

Enfim. Isso aqui não era pra ser um elogio à poesia?

Acho que chegou a hora.

A poesia ensinou-me a ler. Ensinou-me a manter a concentração num texto pelo tempo suficiente para que ele fosse… lido.

Com a poesia eu voltei a ser aquela criança apaixonada pelas formas rocambolescas das palavras sem sentido. Foi como um desvelar do sentido, mas ao contrário. As palavras despiram-se de seus véus semióticos e voltaram a ser apenas aquelas estruturinhas estranhas que me hipnotizavam.

Estranho, eu sei.

Mas é verdade.

Depois, evidentemente, larguei as frescuras que me deixavam lerdo e voltei a vestir as palavras com seus significados que eu sabia serem necessários, mas sem me importar muito com isso, assim como, confesso, não me importo nos dias de hoje. E isso não faz de mim um blasfemador das palavras, muito pelo contrário, eu sou um amante delas e isso me coloca em posição mais do que favorável para falar o que bem entender delas e fazer o que eu quiser com elas.

Currá-las de seus sentidos disformes e fazê-las amadas.

Desculpa, mas é assim.

E foi a poesia que me trouxe de volta a esta cafetinagem lógica. Foi a poesia que me abriu as portas e as pernas para toda a literatura que eu, na adolescência tardia, devorava loucamente.

Foi assim.

E a poesia não me deixa mentir.

Agora não a leio mais. Deixo-a em seu canto. Algumas vezes ela me olha e flerta comigo de longe, pois sabe o perigo que pode ser um flashback deste tipo. E seguro-me.

Quem sabe um dia, poesia?

Mas não hoje.

[CATO ALBERICO RIBEIRO]

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