o Olhar que Escapa (partita #97 soslaio martellato)

O olhar que escapa. Há sempre um rabo de olho vadio, desobediente, que escapa de sua comportada órbita – bela imagem: olhos fora de órbita – para olhar o que não deve ser olhado. A cabeça continua reta, a frente da fronte, tentando enganar a quem?, fingindo que todas as atenções continuam voltadas para o ponto que se está indo, mas não, o rabo d´olho mostra que não, escapando do controle superegóico, “não, eu quero olhar, por que não posso olhar?”, bem, olhar pode, o que não pode mesmo é tocar.

Então a gente tenta pegar as coisas com os olhos, tenta tocar em tudo através do olhar, fazer com que as pessoas nos sintam apenas com um leve afagar de olhos. Olhos cheios de dedos.

Bela imagem: olhos cheios de dedos.

O olhar periférico, sempre subestimado, coitado. Podemos colocar o mundo inteiro nos olhos sem que eles se mexam. Basta treino. Insistir e dominar a técnica do soslaio. Olhar sem parecer que está olhando. Jogar olhares mentirosos pelos lados, distribuindo setas tortas com os cantos dos olhos. Não deixar que ninguém perceba esta forçada atenção cento e oitenta graus.

Então passa uma garota aqui, bem na minha frente, e joga um olhar involuntário. Provavelmente devia estar curiosa com a disforme imagem que se montava no lado periférico de seu mundo visual: eu. Nada que pudesse dizer alguma coisa. Não era eu, o olhar não foi pra mim, foi pra minha imagem disforme e periférica. Quando me vê, desvia o olhar. Só se interessa quando estou no canto do olho dela. Então minha imagem deformada é melhor que eu mesmo no centro do olho? Sou mais bonito num reflexo distorcido?

Num reflexo de coisas.

Atraída pelo soslaio, ela joga o olho em minha direção, sem nem mesmo mexer a cabeça ou interromper a conversa que tinha com a colega que a acompanhava. Nem mesmo um segundo de olhar, só esse soslaio mal feito, escandaloso, barulhento. Um meio olhar.

Um quer que não quer.

Eu aprendi a manter meu olhar sempre à frente, encarando as pessoas, a vida, as paredes da vida com a coragem de quem nunca tomou topada.

Bela imagem: a coragem de quem nunca tomou topada.

Ela joga um olhar torto e recebo-o com a obstinação reta de quem não vai desviar o olhar. Não houve tempo, porém, para tanto, nem mesmo para um leve encarar. Um soslaio, mesmo que mal montado, não se deixa solidificar em encarações desafiantes.

Todo soslaio é covarde; e é por isso que é soslaio.

[CATO ALBERICO RIBEIRO]

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5 pensamentos sobre “o Olhar que Escapa (partita #97 soslaio martellato)

  1. Mariana disse:

    Gostei muito desse seu texto. Lerei outros.

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