solitude (partita #73 solla)

“A pior solidão que existe é darmo-nos conta de que as pessoas são idiotas”, está aí uma citação que não entendo, já que, se o solitário constata, através da solidão, que o mundo é repleto de idiotas, então isso me parece uma coisa boa, não? Uma espécie de iluminação. E como poderia isso ser uma coisa ruim ou até mesmo a pior solidão?

A citação é de Gonzalo Torrente Ballester, autor que nunca li direito, nem canhoto, nunca fui no fundo de seus textos, se é que existe algum texto que deva realmente ser lido até o fundo. Ler dá uma preguiça, então se deve escolher bem a quem ler.

Ser, às vezes, no fundo, dá uma preguiça também.

Mas a gente segue lendo, meus eus, porque todos os grandes leram, ou fingiram que leram, então sigo lendo e gosto especialmente, de uns tempos pra cá, de atazanar-me com a leitura de algumas biografias, aquelas dos grandes, sobre os grandes, e perturbo-me deliciosamente quando leio que “nego leu Horácio em latim com 12 anos” ou “Schopenhauer com 15” e fico pensando como é que pode ser isso, então só penso, modestamente, que é por isso que eles foram grandes, afinal de contas.

Coisas grandes.

E leitura tem que ser coisa de quem aprecia ficar sozinho. Se você quer companhia constante, não seja escritor, não se envolva com a palavra, que é obsessiva e ardilosa, minha mãe bem que dizia, “não se envolva com essa tal palavra, meu filho”, e hoje eu sei que é porque ela exige demais, que fica brava quando não se presta muita atenção nela e que não admite escapadelas, a não ser que estas sejam com elas, o que nem sempre é possível, felizmente (não consigo imaginar um casamento em que se tenha que levar o parceiro/parceira para todos os lados; seria de enlouquecer). Se você quiser companhia, seja músico, pois já dizia o velho Jobim: “fundamental é mesmo o amor, é impossível ser feliz sozinho”, está aí uma frase que só poderia ser pensada por um músico mesmo. Candidamente. A companhia é essencial. Doenças venéreas são legais e a gente nunca pega quando está sozinho. Chifres e mentirinhas conjugais são temperinhos saborosos do amor e a gente nunca sentiria esse gosto na boca se estivéssemos sozinhos. Ironia é uma coisa pra poucos mesmo. Né?

Algumas das maiores atrocidades contra a humanidade ou contra o indivíduo são cometidas por aquele mesmo grupo, numa espécie de autodestruição abstrata que tende a entropicamente acabar com a sua ordem. Agentes do caos. Terroristas. Traficantes. Políticos. Pais e mães. Guerras, assassinatos em série, casamentos, festas chatas e jogos de futebol. Não é o caso de fazer uma lista aqui, mas acho que já dei uma pista.

Pistas de dança são insuportáveis também.

Aprendam com as crianças e a maneira como elas ficam sozinhas. Como elas fazem questão de estarem sozinhas, em seus mundos de mentira e aquele tédio açucarado que as colocam na realidade como indivíduos e só. “Estar só, como a criança está só”, essa é do Rilke e está aí uma coisa bela e certa de se dizer e constatar. E o Rilke comeu a Lou Salomé, aquela russa depravada (no bom sentido do “depravada”), coisa que o Nietzsche nunca conseguiu, porque vez ou outra, ele, o Nietzsche, dizia coisas belas, mas na maioria das vezes era só um turrão mesmo e ninguém gosta de ficar às voltas com um filósofo ranzinza.

O segredo em estar só, e contentar-se com isso, reside na ideia de se ficar sozinho entre os outros, assim como faz a criança. Experimente chamar uma criança quando esta não quer (ou não pode) ser chamada. Em quais mundos estará aquele individuozinho?

Não se engane com risadas, choros, elogios ou críticas; às crianças tudo isso são coisas que não dizem nada, pois elas riem por rir, choram por chorar e só criticam quando querem elogiar. Fique alguns instantes deitado no chão e olhe para um ponto fixo até que a mente se acalme num momento em que o silêncio dê um estouro na compreensão da realidade e faça tudo parecer nada. Com os pés levantados e jogados para o ar o efeito é mais forte, estão aí os iogues que confirmam minha tese.

Nada daqueles eremitismos medievais, nada daqueles comportamentos monásticos de automutilação e isolamento forçado em desertos barulhentos – nos desertos, a mente grita nos ouvidos. Nada disso. Criar seus próprios desertos, pois, alongar seus próprios campos de areia e solidão, mas tudo entre os outros, no meio da sociedade, está aí o desafio. Encravar um Saara em plena Avenida Paulista. Ler e abstrair-se do mundo, separar-se, pois bem, no meio do tumulto provocado pela procura de um lugar num Starbucks. Praticar manobras de meditação transcendental na fila do Pão de Açúcar, momentos antes de escutar os insuportáveis “Cliente Mais? Nota Fiscal Paulista?”.

Outra coisa: não estamos falando de solidão, afinal, mas de solitude.

Mas talvez seja tarde demais para esclarecer isso. O texto já se perdeu.

Pruma próxima.

Tchau.

[CATO ALBERICO RIBEIRO]

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