espelho (partita #37 adagietto quasi parlando)

Algumas pessoas são muito óbvias em seus psicologismos invertidos. Suas vidinhas medíocres colocadas diante do espelho. As mentiras que contam para elas mesmas, seguidas vezes, até que, invertidamente, se tranformem em verdades. Tática desprezível, velha até, se você mente, mente, mente, uma hora acredita na mentira.

Sim, às vezes é bom sentar na frente do espelho, olhar no fundo dos reflexos distorcidos, e lançar algumas mentirinhas safadas. Mentiras brancas, é como as chamam, como se a cor de alguma coisa pudesse determinar o valor ou o desvalor dela. Besteiras cromáticas. Não interessa a cor da mentira, o que importa mesmo é saber contar uma na hora certa, no lugar certo. O que faz a mentira é o momento. Isso não muda quando você mente para si. Saber mentir na hora certa. E com finura. Olhar praquele reflexo chocho, fitá-lo fundo no reflexo dos olhos e mentir, um reflexo refletindo o outro, criando uma trilha fractal de espectros que se perdem no infinito, criando mentiras de lança-perfume.

As mentiras, que são brancas, que se entendam.

Gostar do que vê no espelho, pois, mesmo que no fundo você não esteja muito satisfeito com o narciso torto que está na sua frente. Mentir que gosta. Até acreditar. Faz diferença na sua vida as opiniões dos outros? Quem disse que os outros existem de verdade? E se estivéssemos todos, você e os outros, dentro dum espelho? Reflexos a viverem uma vida refletida nela mesma. Se somos todos reproduções de existências que vivem do outro lado de algum mastodôntico espelho cósmico, por que teríamos de levar em conta o que os outros pensam?

Pensamentos refletidos são círculos viciosos que se anulam cada vez que fazem o movimento de reflexão. A volta por si mesmo. O pensamento circular. Pensamentos que se pensam e se pensam e se pensam. Auto-anulação. Um reflexo que se reflete nele mesmo acaba invariavelmente por se engolir. A cobra que come o próprio rabo.

A reflexão anula o pensamento.

Eu queria poder me anular na hora que quisesse, do jeito que pudesse. Mas não posso, porque não sei se sou reflexo ou “the real deal”. Auto-fagocitose não é auto-conhecimento. Quando você se come você não se conhece, você se extermina.

No máximo é masturbação.

Quando você mente para si mesmo ou deixa que o si minta para você, alguma coisa se perde na ordem de compreensão, na ordem de adaptação das imagens na consciência. Quebra-se o bailar egóico. O cordão umbilical com a aparência é desamarrado. Você pode ser reflexo ou o que for, de repente nada mais importa, a mentira cristaliza e os limites entre verdade e ilusão diluem. O espelho continua intacto pois ele é o vórtice para onde todas as aparências escorrem. No meio do espelho, o reflexo apagado do Fluxo.

Pode ser com “éfe” maiúsculo?

Quando você se conhece, você se extermina.

[CATO ALBERICO RIBEIRO]

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