pinocchio era um pedaço de carne que queria ser tábua ( partita #71 tempo rubato)

Se alguém disser que sabe o que está acontecendo, é mentira, sempre digo e repito e sublinho isso por aqui. Pode olhar fundo nos olhos dessa pessoa, apontar o dedo na sua cara, e dizer: você está mentindo. E a tal pessoa vai ter que assumir, ou botar o rabinho hipócrita dela no meio das pernas de carne covarde dela e ir embora, fingindo que sabe, fingindo que entende. Esses são os mentirosos da vida sem fim, são esses que colocam tudo a perder. Os mentirosos. E não estou falando do idiota que come a secretária depois do expediente do trabalho e diz à esposa que estava com os amigos no bar. E muito menos da criança que não sabe ler até uma certa idade e que diz pra todo mundo que sabe, de vergonha, medo da maldade e da perfídia alheia. Não, essas são mentiras belas. O problema do mundo é o povo que finge que entende alguma coisa. Qualquer coisa. Uma coisa. Uma coisa que seja.

E eu já disse que este é um livro sobre as coisas, não? Tá na capa, volta lá.

Desconfiem. Sempre. Afinal, não é por isso que estamos aqui nesta bateção de cabeças? Não é por isso que matamos e odiamos e choramos e sofremos? Porque somos de carne e o magnífico nela, na carne, é que ela sofre, sem entender porque, desconfiada. A carne desconfiada. Trata-se dessa perecível e mole condição humana.

Eu sei que temos livros e livros que nos dizem o que fazer. Estão aí todos os filósofos do mundo e dos tempos que não me deixam mentir. É muito filósofo. Muito amigo da onça da sabedoria. Olho para a estante e só os vejo. Vou à biblioteca e lá estão eles, atazanando-me, lembrando-me do tanto para ler, do tanto que não sei e do pouco que nunca saberei. Pego um livro para, como dizia o Leminski, me sentir menos bicho. Então leio, e eu juro que leio, mas quando acabo o livro, merda, eu me sinto mais bicho ainda. Mas, quando caminho, ao voltar para casa, ainda tonto de tanto “eu sei”, “eu entendo”, sinto-me mais bicho do que nunca, tudo estala, como sempre, mas logo tudo se acalma, pois percebo que nem sou tão bicho assim, nem tão tonto também, sou homem, sou carne, e sei que ninguém, na verdade, entendeu ou entende qualquer coisa de nada. Nem mesmo os tais filósofos. Nenhum deles entendeu nada mesmo.

E não serei eu, agora ou depois, que entenderei alguma coisa no final das contas.

[CATO ALBERICO RIBEIRO]

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