endorfina (partita #27 prestissimo)

Existem coisas fascinantes sobre a linguagem. É impressionante o quanto se entende da natureza humana só analisando com cuidado as palavras que falamos. Todos nossos mitos foram criados por nós mesmos e todas aquelas ilusões e todas aquelas mentirinhas de papai noel só existem no plano da linguagem. Às vezes, na maioria dessas vezes todas, essa análise acaba servindo para começar novos pensamentos, novos projetos, novas ideias, novas tantas coisas. Outras vezes, não serve pra nada.

Como esta que se desenrolará.

A endorfina, a gente acha que sabe, é uma substância química que se convencionou chamar de neurotransmissor. É um hormônio, vejam só, que tem como principal função fazer a comunicação entre as células. É uma espécie de linguagem do corpo. Uma linguagem orgânica que deve estar passando por seleção natural, funcionando em esquema de máquina abstrata e passando por processos auto regulatórios. O órgão responsável pela sua produção é a glândula pituitária, também conhecida como hipófise, que tem o tamanho de uma ervilha e que, apesar de suas dimensões, é responsável pela produção, além da endorfina, de todos os outros neuro-hormônios que o corpo usa para fazer a ponte de comunicação entre suas células.

A palavra endorfina é grega. Mas as endorfinas não eram conhecidas no mundo antigo, elas só foram descobertas em 1975 e a língua grega já não era uma língua muito popular naqueles anos. Mas Solomon Snyder tinha (como deve ter ainda, pois está vivo) certa simpatia por palavras gregas, por isso batizou aquele recém-descoberto hormônio em grego, o que, convenhamos, dá um certo ar erudito às coisas. Biografia do ilustre homem, só pra constar: Snyder é um grande expoente científico e muito se avançou nas neurociências graças às suas pesquisas no campo dos neurotransmissores, além de muitas outras pesquisas e estudos sobre a ação de certos agentes psicotrópicos na mente humana.

As endorfinas, como bem achamos que sabemos, são liberadas com aproximadamente 30 minutos de esforço físico ininterrupto e, entre muitos outros efeitos, aumentam a resistência do corpo, a disposição física e mental, bloqueiam lesões nos vasos sanguíneos e aliviam dores. Como bem se percebe, são todos efeitos que sugerem ao corpo que ele continue a se movimentar, que continue com o esforço que está produzindo os próprios hormônios que lhe dizem, sem parar, que não pare. É um movimento de dialelo e, apesar de ser uma ideia desconfortável, acaba sendo só isso mesmo: um círculo vicioso.

Mas enquanto a existência orgânica não aparece com algo melhor do que um circuito fechado, a gente vai ter que se virar com isso mesmo, entender essas pequenas produções de linguagem química, e ir levando.

Vamos criando maneiras para aumentar ou diminuir a produção desses neurotransmissores. Vamos produzindo linguagem suficiente para que o corpo, num movimento de fora pra dentro, mexa nos profundos mecanismos do cérebro, mecanismos tão inacessíveis quanto minúsculos. Vamos fabricando culturas e sociedades e religiões e mitos e todas essas mentiras por um motivo apenas: a fabricação natural e espontânea de drogas orgânicas. Pouco pensamos nas possibilidades que poderíamos criar com a chance de controlar este poderoso laboratório interno que todos carregamos nas gavetas empoeiradas de nossos cérebros. Pouco pensamos e deixamos por isso mesmo. Levando.

A palavra endorfina, afinal de contas, é um neologismo criado por Solomon que une duas palavras gregas. O prefixo endo, que significa “dentro” ou “no interior”, e uma modificação da palavra morfina, droga que foi homenageada, por sua vez, com o nome do deus do sono grego, Morpheus, graças às suas faculdades, enfim, morféticas. Snyder quis, na ocasião, chamar a atenção para as propriedades amortecedoras das endorfinas, que realmente são poderosas, mas que não precisam levar o corpo ao marasmo e tirar a mente da vigília, ao contrário, elas servem, de certa maneira, para ajudar-nos a destruir nossos corpos. No bom sentido da palavra “destruir”, certo?

Quem entende bem esse conceito são os atletas. Corredores, ciclistas, nadadores, escaladores, alguns raros de alguns esportes coletivos, alguns jogadores de futebol, outros de basquete, vôlei, mas alguns, não muitos. Os heróis sadomasoquistas das endorfinas são os atletas solitários, mesmo que eles estejam em meio a uma multidão, são aqueles solipsistas que só dependem deles mesmos para movimentarem-se, e apenas movimentarem-se, pegar o vácuo do universo e tentar acompanhar. Sem objetivo. Sem linha de chegada. São os triatletas, os maratonistas, os ciclistas de estrada. Esses são os seres de bronze, hesiódicos, que morrerão no anonimato, que gastarão suas últimas reservas de fôlego para dar mais um passo, mais uma braçada, mais uma pedalada, e destruirem-se, entregarem-se à inevitabilidade da entropia, gastar os meniscos, estourar os pés, travar a lombar. E a endorfina anestesiando a tudo isso. Enganando a mente, injetando ilusões que enchem o corpo de prazer e autoconfiança. E este corpo, mergulhado nessa dormência, continua, acredita que dá, e vai, e supera os tais dos limites.

Os tais dos limites.

A endorfina é um hormônio de comunicação celular. É um sopro sacana no ouvido que convence, sem saber exatamente do que se está a convencer. É um olhar suave. Um sorriso sonado. Um sono interno e em vigília, uma panaceia orgânica interior, que é inata e de fácil acesso. Basta meia hora de treino. Sem parar. Apenas pra começar. A vontade de destruição vem depois. Uma inexplicável vontade de superação. Um vício que ninguém tem coragem de criticar. Um vício heróico.

Ou só uma onda barata de endorfina mesmo.

Tanto faz, depois de tanta linguagem, tudo perde o sentido.

Mas não é nada que um tiro de 15 km não coloque no lugar.

“… eu tenho aqui um remédio secreto, que eu chamo de láudano, e que é superior a todos os outros remédios heróicos.”
(Paracelso)

[CATO ALBERICO RIBEIRO]

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