diário forçado (uma partita vazia)

sabe. eu não acredito mais nessas coisas de escrever sempre do mesmo jeito. eu acho que o cérebro é um fluxo, eu acho que ele é fluidio e segue as mesmas físicas que as águas do mar ou o movimento das estrelas. como é que, diante disso, posso achar qualquer coisa sobre qualquer… coisa?

eu tenho um Catão jovem e um Catão velho, dentro duma mesma massa psíquica amorfa que se movimenta o tempo todo dentro da minha mente. ela mesma, esta massa, ela mesma é minha mente.

como então escrever sempre do mesmo jeito?

«ah, eu não gosto de sofrer», é o que eu mais ouço, mas a voz trêmula já entrega, o olho vacilante deixa óbvio. mas ninguém admite. não há quem admita. eu sofro, mas eu gosto. porque a trip é boa, são muitas químicas envolvidas no processo, muitos vícios que produzem poderosas combinações lisérgicas. adoramos nossos delírios masoquistas.

e hoje eu sou só tristeza. sou apenas dor. ando pelas ruas cantarolando músicas que não me saem da cabeça há anos, e só porque elas me doem quando as canto, eu vou lá e cantarolo. fico numas de joão gilberto, que adorava cantar o sofrer, ou sofrer o cantar, não sei bem, mas poucos faziam como ele. e digo no passado mesmo, porque hoje ele é um chato. quando a gente sofre demais, acaba virando um chato mesmo. preparem-se, é só questão de tempo. vai todo mundo ser chato. mas o joão gilberto é um tipo especial de chato. ele pode. acho que todo mundo concorda comigo, já até virou um lance de marketing. e um dos melhores versos sobre o sofrer que existe foi ele que escreveu, e é «a gente precisa aprender a ciência de viver pra não sofrer», bela frase, a música é boa também, tem aquela levadinha safada de quem não come, mas também não sai de cima, fica zanzando dentro da cabeça de um jeito fácil, nem precisa muito esforço, é só acontecer alguma coisa que ela, sozinha, já começa a rodar na mente.

eu sou todo carne, já disse. não tenho uma faísca de metafísica aqui dentro, não tenho a menor vontade de virar luz ou ar. somos terríveis com nossos complexos de inferioridade, não é mesmo? inventamos deus, porque queríamos ser deus. ou seja, preferimos ser uma coisa que não existe a nos contentarmos com nossas carnes reais. pior, preferimos servir à tal coisa, na eterna esperança de um dia virarmos esse deus. e digo no singular mesmo, porque não há espaço para deuses. preparem-se: vai rolar sangue.

não, é mentira, por mais que me doa admitir isso, eu tenho uma novidade para vocês, os gregos estavam certos: existem vários deuses. várias possibilidades sobrepostas de deuses. um entrelaçamento quântico de deuses e deusas. e, sim, eles têm sexo, porque haveria ser diferente? tudo no universo se organiza em dois pólos extremos da mesma coisa. é a mesma coisa, mas ao mesmo tempo não é. pedras fêmeas e machos. tudo. desta vez foi assim, mas não quer dizer que nas outras versões de universos que ainda estão por vir tenha que ser assim também. e não será. bom, eu não tenho certeza disso, mas vamos supor que não será. e fica tudo bem.

[CATO ALBERICO RIBEIRO]

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