contemporâneo (partita #98 andante grazioso)

contemporâneo. [Do lat. contemporaenu] Adj. 1. Que é do mesmo tempo, que vive na mesma época (particularmente a época em que vivemos). – S.m. 2. Indivíduo do mesmo tempo ou do nosso tempo; coevo.

Nada como um dicionarismo para nos colocar em dia. Para nos colocar contemporâneos. Porque somos contemporâneos, não adianta, basta estar vivo para ser. Mas o sentido da palavra anda deturpado. Foi superestimado. O que acaba acontecendo com a maioria das palavras. Elas são superestimadas, exageradas. Ficam enfeitadas. Carregam inúmeros significados. São verdadeiros ideogramas carregados de mentiras e falsas ideologias. Orientalismos que nós ocidentais apenas entendemos pela metade. E a palavra contemporâneo é uma dessas que já foram muito enfeitadas. Estão empetecadas. Assanhadas.

A palavra contemporâneo é bastante contemporânea.

Então as pessoas, agora, passam a ser contemporâneas, não por causa do significado original da palavra, mas porque SER contemporâneo carrega um significado muito mais complexo e que pode ser aplicado em várias situações. Afinal de contas, este adjetico carne de vaca deve fazer aquilo para que foi feito. Ele adjetiva. E a mídia gosta de adjetivar. Isso a gente já sabe. Ela é feita para adjetivar. Isso é bom. Aquilo é ruim. Ela é a mediadora. É médium. São os meios e os Fins. O alfa e o ômega. Deus e o diabo. Numa terra sem sol. Onde é tudo cinza na vida, mas cor de rosa na tevê, no rádio, nas revistas e jornais, no meio do lixo, entre a miséria, no meio da dor. Então é cinza e rosa. E até que a combinação não é tão ruim assim.

E a mídia diz o que é contemporâneo ou não, sem medo de cair em contradição, porque não há nenhuma mesmo, se a mídia mostra, é porque deve estar vivo, então é contemporâneo. Se a mídia mostra, é do nosso tempo. Está aí um jeito interessante de transformar o velho no novo, o morto no vivo. Basta pôr na mídia e pronto, é contemporâneo. Explica-se o porquê da enxurrada, vez ou outra, das coisas velhas que nos entram pela janela de casa. Por isso a moda vive tanto do velho como vive do novo. É cíclico. É enjoativo. Daí a ânsia. Daí a náusea.

O Guattari, ele de novo, escreveu que o ser humano contemporâneo é desterritorializado, querendo dizer com isso que “seus territórios etológicos originários – corpo, clã, aldeia, culto, corporação… – não estão mais dispostos em um ponto preciso da terra, mas se incrustam, no essencial, em universos incorporais”. Ele continua (e eu continuo citando porque é bonito. se já fizeram uma vez, porque fazer de novo? então eu cito inteiro, que é pra eu ter meio trabalho): «os jovens que perambulam nos boulevards, com um walkman colado no ouvido, estão ligados a ritornelos que foram produzidos longe, muito longe de suas terras natais”. As pessoas não têm mais descendentes, antepassados. Surgiram do nada e sumirão do nada, era o que dizia o filósofo. Com nossos ipods nos ouvidos, vamos embora em lembranças que não são nossas, emocionamo-nos com histórias de outras pessoas. A este misto de alienação com esquizofrenia damos o nome de arte. E hoje tudo acaba sendo arte, porque, assim como fizeram com a palavra contemporâneo, a palavra arte também aparece cheia de enfeites e badulaques pendurados nos seus sentidos. Uma semiótica polifônica, esquizofrênica mesmo, no sentido mais restrito da palavra. Uma semiótica rachada.

Estética esquizo.

Mas a mídia não assume este caráter rachado. Acaba se espalhando como um rizoma, mas age como se estivesse a se desenvolver linearmente. Nossas revistas e jornais continuam com suas colunas, suas sessões quadradas e de fácil localização. Nas tevês, os mesmo programas, os mesmos estilos, as mesmas narrativas, a mesma luz de sempre, dividido em blocos recheados com as maravilhas da publicidade nacional. O molho de tomate preferido da dona de casa. O carro extra. A poluição extra. Fica tudo em bloco na nossa vida, porque é assim, fica mais fácil de achar. Quem é que quer ter problema para achar as coisas hoje em dia?

Ser contemporâneo é achar tudo que você quer na hora.

Ser contemporâneo é querer. E achar.

Basta estar vivo para ser contemporâneo.

[CATO ALBERICO RIBEIRO]

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