pose (partita #102 reazionaria posa ma non tanto)

Existe uma coisa engraçada sobre câmeras e é este efeito que ela proporciona na gente. É um efeito, encavalado em muitos outros efeitos, são micro efeitos, mas que a teoria do caos já conseguiu fazer todo mundo entender que esses micro efeitos depois viram turbilhões de enormes defeitos, pois essa coisa de “arredondar”, bem, era basicamente isso que tava cagando com tudo, esse arredondamento, que é o tipo de coisa que nos habituamos a fazer, desde os mais tenros anos da escola, não é mesmo?

É.

As câmeras e as pessoas. Taí uma sugestão de tema, filósofos. Investiguem. Novos temas, por favor, novos temas, pois somos nós, os civis, que precisamos agora fazer o trabalho de vocês?

Pois está aí um relacionamento estranho, este entre a câmera e as pessoas. Todos têm uma tendência, meio esquizofrênica, de achar isso o máximo e de superestimar essa relação. As pessoas ficam transformadas, melhor, perturbadas diante de câmeras; e estão aí os odiosos reality shows que concordam comigo. Deve ser alguma coisa relacionada com olho mesmo, só pode, vamos forçar um pouco a hermenêutica e esta maravilhosa técnica que é a interpretação de textos. Deve ser uma nóia de Irmãs Papin, não? O olho simbólico.

Porque se não é o olho, o quê mais poderia ser? Esta delirante alucinação cristalizada que a gente conhece como ego? E, além do ego, esta vontade louca de querer imprimir de alguma maneira este fenômeno, tão pequeno, tão insignificante se comparado ao resto do universo, um fenômeno imperceptível. Então tem o ego, tem a câmera-olho, tem o ambiente, mas tudo isso a gente pode colocar dentro do ego mesmo, que é pra dar uma resumida. E dentro desta muito nossa consciência, que eu vou resumir também tudo no ego, que é pra destruir cento e poucos anos de freudismo e parar com essa bobagem de querer colocar o funcionamento de nossa mente num sobradinho de dois cômodos. A mente é um labirinto macarrônico de personalidades e pensamentos soltos que estão o tempo todo funcionando num fluxo de máquina abstrata. Todas essas conversinhas interiores, esses pequenos monólogos fantasiados de diálogos, acabam por criar vontade própria e querem, de qualquer jeito, deixar uma marca na humanidade. O tio Nietzsche é que estava certo nessa. É ilusão crer que controlamos nossos pensamentos. E estamos querendo tirar fotos de nós mesmo? Então qual das personalidades você cristaliza quando resolve tirar uma foto de você mesmo, por exemplo? Estilo fotolog.

As conversinhas interiores não gostam de perguntas e logo se distraem com coisinhas à toa, pequenas distrações que não quebram o pseudofluxo que curtocircuita as consciências deste fenômeno de massa ridículo que a gente chama humanidade. Liga-se um televisor. Abre-se um livro. Cheira-se qualquer coisa. Esquece-se.

Então essas capturas de nossas próprias imagens acabam se transformando numa dessas distrações que os eguinhos independentes de cada um de nós gosta de ter para não precisar quebrar a corrente de alienação que dá conforto, mas não claridade. Fotos pessoais em redes sociais e sites de álbuns fotográficos são o equivalente moderno às antigas imagens religiosas, às eikonas gregas, aos mosaicos bizantinos, à arquitetura romana, às grandes ou pequenas esculturas que eram entregues como oferendas aos deuses e enchiam os bolsos de artesãos e políticos nas antigas civilizações greco-romanas, aquelas pedras velhas. O problema é que hoje em dia qualquer idiota impime uma imagem no fluxo. Faz-se imagens demais.

Como dizia um tio meu, “é tudo pedra velha, tudo pedra velha”. Uma sabedoria triste.

Pedras velhas, pois.

Acho que é legal tirar umas fotos por aí e depois apreciá-las com amigos e parentes. Acho que deve ser, como não? Sou fotógrafo, mas tiro fotos de coisas inanimadas. Por isso, sou amador, como dizem, apesar de já ter feito uns lances profissionais nos tempos do jornalismo. Não vivo disso, mas isso não quer dizer que eu saiba exatamente do que vivo. Eu diria, primeiro, de ar. Um pouco de luz. Água, às vezes. Sou um homem de gostos simples. Adoro fotografia, mas a técnica precisa ser espontânea, não ingênua e dispendiosa. Tirar fotos por tirar não significa nada, não presta pra nada. Contemos agora com o fato de que com essa onda do digital, que eu acho também que não presta pra nada, é capaz que esteja a acontecer algum entupimento numa provável lixeira cósmico-digital, pendurada em alguma dimensão paralela, talvez, às vezes dimensões que se entrelaçam, quem sabe, quem é que realmente sabe dessas coisas? Ninguém. Então todos esses arquivos digitais que a gente apaga não podem desaparecer do nada, hoje eles estão aqui, ocupando espaço em nossos discos rígidos, demorando para processar, rendendo horas de renderização, e amanhã a gente apaga tudo e é assim mesmo? Hoje estão aqui e amanhã não? Para onde vão todos esses arquivos digitais? Eles devem estar amontoades em algum lugar e interferindo em algum processo cósmico que a gente nem sabe que existe e estamos aí, cegos, esperando pra ver o que acontece.

E eu sei que alguém vai se levantar pra falar que se eu realmente acredito nessa teoria é simplesmente porque eu não entendo nada do maravilhoso sistema binário da informática e que os arquivos podem sim não existir e que eles não existem mesmo e que é óbvio que eles também não têm peso nenhum, cheiro nenhum, nem nada, porque se os números não são processados, calculados, as imagens não existem e é simples assim.

Ufa.

Pois bem, mas vamos pensar na possiblidade de que os gênios estão errados e pensar que talvez esteja rolando um desequilíbrio digital-cósmico, ok? Talvez o tal apocalipse dos maias previsto para 2012 tenha alguma coisa a ver com isso. Ou não. Talvez tudo se acabe antes, se tivermos sorte. E mesmo assim, quando tudo estiver desmoronando, os quatro cavaleiros do apocalipse sobrevoando nossas cabeças e tocando trombetas infernais, as vuvuzelas do armagedom, mesmo assim vai ter alguém com uma câmera digital tirando uma foto dela mesma e da hecatombe que se desenrola por trás dela. Fazendo pose.

Estilo fotolog. Até o fim dos tempos.

Quem vive no virtual não sabe como fazer na real.

Na real, brow.

Passado.

[CATO ALBERICO RIBEIRO]

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