elástico metafísico meio bossa paulistana meio roquenrol (partita # 67, a piacere)

Às vezes eu estouro um elástico, só pra ouvir o som dele, e tentar escrevê-lo, descrevê-lo, transformá-lo em alguma outra coisa, transformá-lo em palavras. Às vezes eu fico nessas, porque eu acho que assim vou conseguir pensar em alguma metafísica. Então eu fico com o elástico bem perto do meu ouvido, estourando-o de várias maneiras, puxando, soltando, batendo na pele, batendo num lápis. Quem está de fora olhando, acha estranho, é claro, por isso deixo pra ter esses autismos em casa. Penso muito, escuto, acho que não escuto o que escuto de verdade. Ponho em dúvida o pensamento, ponho em dúvida o próprio som. Fica tudo uma dúvida pura. por causa do estouro dum simples elástico. Então eu perco uma hora nessa lenga, com um caderno aberto na minha frente e milhões de onomatopeias imbecis escritas nele, e percebo, finalmente, que o Fernando Pessoa estava certo e que essas coisas todas de metafísicas são conversas para vacas insones.

Eu nunca vi boi dormir. Mas talvez seja apenas porque eu cresci em são paulo.

E não tem muito o que falar de São Paulo, apesar da vontade ser grande. São paulo é cinza. E isso é tudo. Se eu ficar aqui perdendo tempo com São Paulo, mais do que já perco em inutilidades como escutar um elástico, isso aqui vai se transformar numa ridícula ode paulistrofênica, e eu ia ter que exaltar cada detalhe medíocre da cidade, só pra parecer que ela é grande coisa, pra parecer que ela é a melhor cidade do país. Mas ela é merda. Merda pura. As calçadas cheiram a mijo. Por cima do mijo, e por baixo do cheiro dele, estão os mendigos, os farrapos de carne que se espalham pela cidade. O cheiro, então, é de mijo e pinga. Com um tom aromático de sopa velha requentada na lata. Uma delícia. Para ficar longe desta mixórdia nojenta de carne e dor, você precisa ir aos pontos mais luxuosos da cidade. Shoppings, por exemplo. Ou alguns bairros residenciais fortificados com o que há de melhor no mercado da segurança. No mercado do medo. Porque só se segura quem tem medo.

Só se segura.

Eu ouço o elástico pra não falar de São Paulo.

[CATO ALBERICO RIBEIRO]

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