deleuze and one cup (partita #75 allegro moderato, tempo primo, senza interruzione)

É maravilhoso viver numa época em que podemos abrir um livro de filosofia – pelo menos ele estava na prateleira onde se escrevia, numa plaquinha plastificada, FILOSOFIA – e ler uma coisa do tipo: “Ânus voadores, vaginas rápidas, não existe a castração”.

Isso a gente lê no Mil Platôs, do Deleuze-Guattarri, com o perdão da influência mais que descarada e insistente. É uma frase bela, vamos lá, podem concordar. Eu sei que Deleuze parece coisa de mulherzinha, eu tenho um amigo de adolescência que me atazana até hoje com isso, “Você tá parecendo aquelas gurias da USP, passeando com o Deleuze debaixo do braço”, e é verdade, vez ou outra eu tô com um Deleuze debaixo do braço.

Mas essa aí deles, do duo, de que não existe castração, não sei, não consigo concordar.

Seu Deleuze, seu Guattarri, eu tô passando por um momento de raiva e dá pra ver isso quando eu escrevo “tô” e fico com muita vontade de falar “porra”.

Porra (eu falei “porra” em voz alta agora… não, mentira, não falei).

É legal eles escreverem essas coisas porque mostra toda uma liberdade lírica ao mesmo tempo perigosa e fascinante que deixa claro uma vontade de voar; nesta pequena frase eles desenvolveram um devir antiFreud, numa espécie de brincadeira mesmo, de bucetas e pintos, que invariavelmente, quando juntos, terminam em castração, e eles fazem isso pra deixar claro que se fosse o Freud escrevendo ao invés deles ele ia estar falando em castração, mesmo que não tenha nada a ver com o discutido, mas que como eram o Deleuze e o Guattarri escrevendo, então ninguém ia falar de castração.

Mas tem castração, sim senhor.

Pois a gente castra as bolas, o clitóris, a autoestima, a vontade, os sonhos, objetivos e até mesmo as ilusões, que são belas, mas ficam feias quando castradas. A gente castra o filho, a filha, o pai, a mãe e já deu pra perceber que eu vou falar da família toda, por isso, a gente castra a família toda. A gente castra os cônjuges, e como castra! O prazer do casamento, às vezes, cristaliza-se numa sucessão de dialelos raivosos e castrantes que funcionam como uma máquina abstrata que se autoregula na forma de um estranho organismo que pensa sem pensar.

Entendeu? Não? Lê de novo.

Se não entendeu, dá pra continuar sem entender mesmo.

Marido castra a esposa que, por sua vez, vê a autoestima cair, ganha quilinhos a mais e, diante do espelho, revoltada, promete pro reflexo gordo que infernizará a vida do marido. Mas como? Castrando-o. Mas como, como? Bem, as pessoas têm seus próprios métodos pra fazer isso, então ficam os dois neste círculo vicioso, as primaveras passam, as crianças crescem e vão embora e o fim a gente sabe qual é, ver a grama crescer ao contrário, no máximo um epitáfio estiloso.

Se Deleuze estivesse aí até hoje, estaria diante de um computador, embriagando-se de internet. Qualquer macaco descobre coisas maravilhosas na rede, fico imaginando o que uma pessoa como o Deleuze faria diante de um monitor e um acesso rápido à ela. Ele descobriria que existem coisas maravilhosas na humanidade, como menininhas apetitosas que cagam num copo e comem suas bostas multicoloridas enquanto se beijam e praticam sexo oral umas nas outras; iria descobrir um cara que senta num copo vazio e, propositalmente, num movimento rápido do esfíncter, quebra-o dentro de seu reto para depois raspar com as mãos os cacos quebrados que estão espalhados dentro de seu asqueroso rabo enquanto jatos de sangue saem de seu ânus retalhado e tudo isso sem o desgraçado emitir um som que seja, talvez um gemidinho de prazer, no máximo; ele veria um gordinho filipino de dois anos de idade que fuma com mais sofreguidão do que meu avô turco quando tinha quarenta anos (turcos com quarenta anos fumam muito); veria, inclusive, pessoas que se castram e arrancam pedaços de suas genitálias apenas por prazer, só pra mandarem o Freud e o Deleuze e quem mais quiser ir junto à bella merda. Deleuze veria isso, todos os dias se quisesse, e mandaria tudo também à merda.

Eu vejo tudo isso e fico também com vontade de ir à merda.

Caro leitor. Vá à merda.

Bapho.

Two girls and one cup. One guy and one cup.

Ou fica no Discovery Channel.

[CATO ALBERICO RIBEIRO]

Anúncios
Etiquetado , , , , ,

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: