snap! (partita # 91 rotto)

E essa coisa absurda de sentir tudo como se fosse estalar a qualquer momento, como se estivesse tudo num elástico bambo prestes a estourar? Fico vivendo como se estivesse quase estourando, mas eu não sei se vai estourar agora, não sei se vai estourar amanhã, na verdade, eu não faço a menor idéia de quando vai estourar. Eu não sei, que seja dito, porque ninguém sabe, e que isso seja dito, e bem dito, pois ninguém sabe quando esse elástico vai estourar, vivo repetindo essa ideia, ninguém sabe de nada. Pode ser agora. Pode ser daqui um milhão de anos. Pode ser que o universo esteja para colapsar num breve momento e temos todos esses cientistas aí que nos dizem o contrário. Eles têm tanta certeza que não vai estourar agora, então podemos todos nos tranquilizar, continuarmos a cuidar de nossas vidinhas, continuarmos a cuidar das vidas dos outros.

Está tudo tranquilo, o elástico não vai estourar agora.

Será?

De qualquer jeito, sabendo ou não, vamos na onda dos especialistas, que, espero, devem saber mais do que nós. Segundo esses mesmos especialistas, provavelmente esse elástico não estourará nos próximos milhões e milhões e milhões de anos, seja lá o que isso queira dizer exatamente. Porque essas coisas de milhões e milhões e milhões de anos eu não consigo entender, e duvido muito que alguém entenda. A gente pode sempre fingir que entende, o que é o normal, é o senso comum, fingir que entende, a gente pode, mas fingir não é a mesma coisa que realmente entender. Óbvio, não?

Sim, muito óbvio.

Evito, pois, de falar pelo universo, ou dele, que seja, apesar de estar sempre metendo meu nariz onde não sou chamado, mas prefiro assuntos mais próximos, ou menores mesmo. Porque se controlamos os tais assuntos menores, e é isso o que diz a teoria do caos, nós controlamos também os maiores, pois todo assunto de gente grande já foi um dia assunto de gente pequena. Pequenas interferências causam enormes ondas de movimento e dor no tecido espasmódico do tal espaço-tempo, que é uma outra coisa que a gente não entende direito também, porque é assunto para deuses e não para mortais. E a gente é mortal, espero que ninguém discorde disso.

Por que perder tempo com o pensamento dos deuses? A gente não entende. São metafísicas bestas, delírios de crianças, pois os deuses nunca deixam de serem crianças e é por isso que são deuses. Por que sermos deuses? Qual a vantagem disso? Não é de nossa estirpe, não adianta, nós somos de carne, e precisamos aprender a apreciar isso.

Mas não, claro que não, isso já é pedir demais, pois queremos ser luz, queremos ser ar, olhamos nos espelhos e sentimos nojo de nossa carne. Olhamos a pessoa sentada ao nosso lado no ônibus e, ao constatar que somos como ela, repudiamos o cheiro de suor e sofrimento, essa mistura de esmegma e fuligem. Somos carne. E não gostamos.

Não sei bem porque há de ser desta maneira. Claro que não, porque haveria de saber? Não há porque.

Não há.

É por causa dessa incapacidade que eu fico sempre sentindo a tudo como se estivesse quase a estalar. Numa tensão apertada de gente medrosa, vivendo como se tudo fosse se acabar. E eu não sei mais o que fazer com isso. Sei muito pouco, e é por isso que tudo dói. Não, dor não, isso é exagero de escritor que bate rápido demais no teclado e que pensa de menos, não é uma dor, está mais para um desconforto. Sim, é só um desconforto e, se continuar assim, dá pra continuar vivendo. Porque eu sou só um escritor e eu não faço a menor idéia do que se passa ao meu redor.

E eu bato no teclado rápido demais.

[CATO ALBERICO RIBEIRO]

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