como ser o que quer que seja se a gente não quer ser nada que dá pra ser? (partita #7 com dó, muita dó – molto confusa)

Isso. Vamos fazer de conta que a gente se entende. Vamos fazer de conta que ao menos nos importamos uns com os outros. Vamos fazer de conta, porque assim a gente não pensa muito no assunto. Nesse assunto de faz de conta. Vamos fazer de conta e ir levando. Levando o assunto.

Pôr em fragmentos o que a vida não consegue colocar como um todo. Deixar que os passeios sem noção pelos buracos mais profundos da escória humana modifiquem sua vida a ponto de que ela se transforme numa coisa absolutamente sem objetivo, mas com uma tênue ilusão de que tudo pode, um dia, fazer sentido. Entendeu? Se entendeu, feche o livro.

Como compreender o que seja sobre o que quer que seja se a gente quer que tudo se aquiete numa redoma onde quem quer que entre não entenda nada de quem quer que saia?

Ufa.

Como?

Movimentos de seres humanos pálidos e maquiados em ruas que não ficam quietas. É o cheiro do mijo ácido cortando órgãos que não prestam pra nada. É o grito alto que bate no ouvido torto e que faz a cabeça convulsionar numa vontade de nada a ver. É a gargalhada fora de hora. É tudo isso, que é quase nada, e um pouco mais de nada que se entenda. Tem gente que tenta seguir, mas tá na cara que isso é apenas um monte de palavras jogadas dentro de saquinhos plásticos do pão de açúcar e depois tiradas com os olhos fechados e a mente entorpecida pela novela das oito que agora é das nove. Tá na cara que não tem ordem, mas tem gente que acha que é gente só porque finge que pensa então fica até o final só pra poder falar depois que ficou. Além de você, não tem mais ninguém querendo que você fique aqui. Feche o livro.

Feche o livro e abra a vida. Feche o livro e olhe pra pessoa que está do seu lado. Sorria. Arrisque-se a tomar um tapa. Finja-se de morto. Caia no chão, do nada, e fique um minuto sem se mexer, olhos abertos e fixos num ponto da parede. Morto de mentira. Teste os limites de amigos e colegas e conhecidos e os idiotas do dia-a-dia. Minta. Invente histórias mirabolantes que não interfiram na vida das pessoas e que não sejam apenas fofocas ou rudimentos de opiniões sobre os outros e os ninguéns. Espere três minutos e diga: “tô zoando”. Ria. Esqueça.

A vida é um exercício de paciência e a pseudosinceridade das pessoas me irrita. Sento em mesas que me parecem mais uns tribunais estúpidos de nardoninhas sem futuro. Eram pra ser apenas mesas de bares, mas são trampolins para um vácuo substancial de sucos gástricos, hálitos podres e julgamentos sem fim. Uma arché que os gregos fingiram que queriam compreender, mas na verdade eles estavam mais preocupados em nada querer fazer mesmo.

Nada querer fazer. Não é “nada fazer”. É “nada querer fazer”. Tem uma diferença, não? Então essa coisa de ócio criativo é uma ideia que o Domenico pode enfiar no meu rabo, e eu deixo ele enfiar no meu, que é pra dar essa mamata, porque quando ele inventa uma dessas, logo aparece um monte de nego querendo arranjar desculpa pra nada querer fazer; e o erro do Domenico, afinal, foi acreditar na excepcionalidade do ser humano e crer que nós preferimos fazer coisas criativas do que nada fazer. Tadinho. Domenico, um aviso pro senhor, o ser humano é podre. Ele prefere o nada fazer. Desculpa. Oi?

(síncopes feicebuquianas de twitters aleijados)

Domenico, você é demasi (sic), com o perdão do trocadilho que nem é demais. Domenico, eu me vou, pode ser?

Oi? Beijos, amy. Bapho. Obrigada.

Tchau.

[CATO ALBERICO RIBEIRO]

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